Hoje, uma das problemáticas mais discutidas é a chamada pós- verdade. Trata-se da crescente dificuldade de estabelecer o que é verdadeiro ou não, o que tem consequências graves quando é preciso decidir qual a melhor forma de agir. A respeito do problema da pós-verdade, analise as afirmativas a seguir. I. É característica da pós-verdade que as afirmativas transmitidas por certos emissores tomadas como juízos de valor sejam verificadas e confirmadas como juízos de fato. II. É característica da pós-verdade que os juízos de fato sejam reconhecidos ou rejeitados em função das preferências pessoais de cada indivíduo ou grupo. III. É característica da pós-verdade que a indistinção da fronteira entre juízos de fato e juízos de valor torne-os equivalentes em certos casos. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas.
A alternativa afirma que apenas a assertiva I estaria correta, isto é, que a pós-verdade consistiria em tratar enunciados ligados a valores como se fossem fatos comprováveis. O problema é que a pós-verdade funciona no sentido inverso: fatos objetivos perdem força diante de crenças, emoções e interesses, e não o contrário. Por isso, a assertiva I não traduz o conceito filosófico do fenômeno.
- B)III, apenas.
A alternativa sustenta que só a assertiva III estaria correta, apontando a indistinção entre juízos de fato e juízos de valor. Essa ideia realmente aparece na discussão sobre pós-verdade, porque o discurso passa a borrar a diferença entre o que pode ser verificado e o que expressa preferências ou posições subjetivas. O erro é deixar de considerar a assertiva II, que também descreve o núcleo do problema ao mostrar que fatos passam a ser aceitos ou rejeitados conforme inclinações pessoais ou grupais.
- C)I e III, apenas.
A alternativa reúne a tese de que a pós-verdade faria juízos de valor serem confirmados como fatos e a de que haveria confusão entre fatos e valores. A segunda parte dialoga com o conceito, mas a primeira inverte o sentido do fenômeno, porque a pós-verdade não valoriza a verificação objetiva de juízos de valor; ao contrário, ela enfraquece a centralidade da prova factual. Como a assertiva I está conceitualmente equivocada, essa combinação não se sustenta.
- D)II e III, apenas.
A alternativa descreve bem o fenômeno ao afirmar que juízos de fato podem ser reconhecidos ou rejeitados conforme preferências pessoais ou de grupos, e que a fronteira entre fato e valor se torna difusa. Isso corresponde à ideia de pós-verdade, em que a adesão a narrativas, emoções e identidades pesa mais do que a checagem objetiva dos fatos. Assim, a combinação de II e III é a que melhor expressa o conceito.
- E)!, l e lll.
A alternativa pretende incluir todas as assertivas, como se I, II e III descrevessem a pós-verdade. Embora II e III estejam de acordo com a noção de que fatos são filtrados por preferências e de que a distinção entre fato e valor fica embaralhada, a assertiva I fala em verificação e confirmação objetiva, o que contradiz o próprio sentido da pós-verdade. A presença de I compromete a combinação inteira.
Gabarito: D
A chamada pós-verdade aparece quando a força de uma afirmação passa a depender menos de sua correspondência com os fatos e mais do que a pessoa ou o grupo já quer acreditar. Em outras palavras, a emoção, a identidade e a preferência pessoal ganham espaço e a checagem racional fica em segundo plano. É por isso que o debate fica confuso: fatos e opiniões começam a misturar, como se tudo tivesse o mesmo peso. Na questão, a afirmativa II está correta porque descreve exatamente esse cenário: juízos de fato podem ser aceitos ou rejeitados conforme preferências pessoais ou de grupo. A afirmativa III também está correta, pois a pós-verdade embaralha a fronteira entre fato e valor, fazendo parecer que ambos têm a mesma validade em certas situações. Já a afirmativa I está errada. Não é marca da pós-verdade transformar juízos de valor em juízos de fato verificados e confirmados; ocorre o contrário: afirmações são aceitas sem a devida verificação, muitas vezes por afinidade emocional ou ideológica. Em termos filosóficos, a discussão remete à distinção clássica entre juízos de fato e juízos de valor, muito útil para perceber como a desinformação se instala. Por isso, o gabarito é a letra D: II e III estão corretas, e a I não. A banca explora justamente essa inversão: ela coloca uma frase que parece falar de confirmação racional, mas a pós-verdade vive de enfraquecer essa checagem.