Alguém quer descer o olhar sobre o segredo de como se fabricam ideais na terra? Quem tem a coragem para isso?… Muito bem! Aqui se abre a vista a essa negra oficina. NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. Segundo o autor, os ideais da moral são
- A)valores úteis à conservação e ao bem-estar humano.
Errada, porque Nietzsche não vê a moral como algo naturalmente útil à conservação ou ao bem-estar humano, mas como resultado de disputas históricas e de relações de ძალ/ressentimento.
- B)ideologias que acompanham o correr da luta de classes.
Errada, porque essa leitura é marxista, ligada à luta de classes, e não expressa a genealogia moral de Nietzsche.
- C)produtos de uma história de contingências e violência.
Certa, pois para Nietzsche os ideais morais são construções históricas marcadas por contingências, conflitos e violência na sua origem.
- D)criações particulares de cada sujeito individual.
Errada, porque Nietzsche não trata a moral como criação individual isolada, mas como produto histórico e social, anterior à vontade do sujeito singular.
Gabarito: C
Nietzsche critica a ideia de que a moral nasce de algo puro, eterno e universal. Para ele, os valores morais não caem do céu nem brotam de uma razão neutra: eles têm uma história, foram produzidos em contextos concretos de disputa, força e interpretação. Quando ele fala em "negra oficina", está sugerindo justamente esse lado pouco nobre da fabricação dos ideais: há conflito, dominação, ressentimento e rearranjos históricos por trás do que depois parece natural e sagrado. Isso é típico da genealogia nietzschiana: em vez de perguntar se um ideal é bonito ou correto, ele pergunta de onde ele veio, quem o produziu e com qual interesse. A moral, então, não é um conjunto de verdades universais, mas um produto histórico marcado por contingências e violência simbólica e social. É a recusa da ideia de essência moral fixa do sujeito moderno, como se cada indivíduo criasse sozinho seus valores do zero. Por isso, o gabarito é a letra C. Nietzsche quer mostrar que os ideais morais são construções históricas, nascidas de processos instáveis e muitas vezes duros, e não valores naturalmente úteis ao bem-estar humano nem ideologias de luta de classes no sentido marxista. A chave aqui é desconfiar da aparência limpa da moral e olhar para a sua origem turbulenta.