“Seguir o filão complexo da proveniência é, ao contrário, manter o que se passou na dispersão que lhe é própria: é demarcar os acidentes, os ínfimos desvios – ou, ao contrário, as inversões completas –, os erros, as falhas na apreciação, os maus cálculos que deram nascimento ao que existe e em valor para nós; é descobrir que na raiz daquilo que nós conhecemos e daquilo que somos – não existem a verdade e o ser, mas a exterioridade do acidente.” FOUCAULT, Michel. Nietzsche, a genealogia e a história. In Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2015. Sobre a concepção de História contida no método genealógico de Foucault, é correto afirmar que
- A)trata-se de uma sequência violenta de descontinuidades que modificam os sentidos e valores da discursividade.
Correta: expressa a História como descontinuidade e transformação de sentidos e valores, exatamente como na genealogia foucaultiana.
- B)é tomada como processo cumulativo em que cada novo conflito resulta em enriquecimento global do processo.
Errada: pressupõe um progresso cumulativo e enriquecedor, ideia que Foucault rejeita ao enfatizar rupturas e contingências.
- C)deve ser ignorada em favor da investigação das estruturas do tempo presente devido à sua ininteligibilidade.
Errada: a genealogia não ignora a História; ela a usa para investigar a formação dos discursos e dos valores.
- D)se organiza de tal modo que suas tensões constitutivas a orientam imanentemente a um estágio final harmonioso.
Errada: atribui à História uma finalidade harmoniosa, mas Foucault nega qualquer teleologia no processo histórico.
- E)é um processo de erosão dos valores, na medida em que se afasta progressivamente de seus pontos de origem.
Errada: fala em erosão progressiva dos valores, quando o ponto central não é decadência contínua, e sim a produção histórica e descontínua dos valores.
Gabarito: A
No método genealógico, Foucault não trata a História como uma linha reta, limpa e bonitinha, como se as ideias e os valores fossem evoluindo em ordem de progresso. Ele faz quase o contrário: olha para os acidentes, os desvios, as rupturas, os erros e as disputas que fizeram nascer aquilo que hoje parece natural. A pergunta dele não é “qual é a essência da verdade?”, mas “como algo passou a valer como verdade?”. Por isso, a genealogia desmonta a ideia de origem pura. Em vez de buscar um ponto inaugural perfeito, ela mostra que nossas instituições, nossos discursos e até nossos valores são resultados de relações de ძალ? não; de forças, conflitos e contingências históricas. Em Foucault, a História vira um campo de batalhas, não um passeio turístico do espírito. É exatamente esse o sentido da alternativa A: a História aparece como uma sequência de descontinuidades violentas, que alteram os sentidos e os valores dos discursos. Isso combina com a inspiração nietzschiana da genealogia, que recusa a ideia de origem nobre e revela a exterioridade do acidente naquilo que nós somos e conhecemos. As outras alternativas tentam empurrar a História para modelos que Foucault critica: progresso cumulativo, teleologia harmoniosa, ou abandono da História por completo. Nada disso combina com a genealogia. Para Foucault, a História interessa justamente porque mostra que o que parece natural foi produzido, e produzido de modo nada inocente.