As observações e os cálculos dos astrônomos ensinaram-nos muitas coisas admiráveis, mas o mais importante é, certamente, terem-nos descoberto o abismo da ignorância, que a razão humana, sem estes conhecimentos, nunca poderia imaginar tão profundo; a reflexão sobre esta ignorância deve produzir uma grande mudança na determinação das intenções finais do uso da nossa razão. KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001. No trecho acima, o filósofo Immanuel Kant reflete sobre os efeitos da moderna atividade científica na atividade filosófica. Para esse autor, a filosofia deveria ser revolucionada no sentido de
- A)tomar os novos recursos técnicos como meios seguros de acesso ao conhecimento das coisas em si mesmas.
Errada, porque Kant não acha que os novos recursos técnicos dão acesso seguro às coisas em si, mas justamente mostram os limites do conhecimento humano.
- B)investigar as condições incontornáveis por meio das quais os sujeitos produzem seu conhecimento.
Certa, pois Kant defende que a filosofia deve investigar as condições por meio das quais o sujeito conhece e produz conhecimento.
- C)adotar uma postura pessimista em relação a razão diante da impossibilidade do conhecimento objetivo.
Errada, porque Kant não conclui que a razão é inútil ou pessimista; ele propõe uma crítica da razão para delimitar seu alcance.
- D)liberar a atividade especulativa dos antigos limites cognoscitivos do sujeito transcendental.
Errada, porque Kant não quer liberar a especulação dos limites do sujeito transcendental, e sim mostrar que esses limites são decisivos para o conhecimento.
Gabarito: B
Kant está dizendo que a ciência moderna, em vez de simplesmente “resolver tudo”, mostrou algo ainda mais importante: existem limites para o nosso conhecimento. Quando a astronomia avança, ela também revela o tamanho do que ainda não sabemos. E isso muda a filosofia, porque ela deixa de querer apenas falar de tudo em abstrato e passa a perguntar como o conhecimento é possível, até onde ele vai e em que condições ele acontece. É aí que entra o coração do pensamento kantiano: a filosofia deve investigar as condições de possibilidade do conhecimento. Ou seja, antes de perguntar “o que eu posso conhecer sobre o mundo?”, Kant quer que você pergunte “como o sujeito conhece?”, “quais estruturas tornam esse conhecimento possível?” e “quais são os limites da razão?”. Por isso o gabarito é a letra B. Kant não quer jogar a razão fora, nem transformar a filosofia em pessimismo. Ele quer fazer uma virada crítica: examinar o papel do sujeito no conhecimento. Isso aparece de forma clássica na sua distinção entre fenômeno e coisa em si e na ideia de que a mente organiza a experiência por formas e categorias próprias. Em linguagem de concurso: a filosofia kantiana é “crítica” porque não sai distribuindo respostas prontas sobre a realidade em si, mas primeiro investiga o próprio instrumento do conhecer. A razão, para Kant, precisa conhecer seus limites para funcionar direito, sem prometer o que não pode entregar.