É aqui então que vem dar todo o discurso sobre o tipo de delírio em que alguém, vendo a beleza por aqui e lembrando-se da verdadeira, cria asa e de novo deseja alçar voo. E porque deste delírio participa o que ama os belos, amante se chama. Adaptado de PLATÃO. Fedro. São Paulo: Editora 34, 2016. No trecho acima, Platão trata do amor. Segundo essa obra do filósofo, o amor é
- A)uma via de acesso à elevação da alma ao inteligível.
Correta, porque no Fedro o amor pode elevar a alma do mundo sensível ao inteligível, por meio da lembrança da beleza verdadeira.
- B)um obstáculo sensível à contemplação das essências.
Errada, porque Platão não trata o amor como um bloqueio à verdade, mas como um impulso que pode conduzir a ela.
- C)uma forma de descarga emocional útil para a cidade.
Errada, porque o amor platônico não é visto como mera descarga emocional útil politicamente, e sim como experiência de elevação da alma.
- D)um artifício retórico utilizado por poetas e sofistas.
Errada, porque o trecho não reduz o amor a um recurso de persuasão; isso se aproxima mais da retórica dos sofistas do que da filosofia platônica.
Gabarito: A
No Fedro, Platão trata o amor como algo muito mais profundo do que simples atração física. Ele usa a imagem do delírio amoroso para mostrar que, diante da beleza sensível, a alma pode se recordar da Beleza verdadeira, que existe no plano inteligível. Em outras palavras: ver alguém ou algo belo aqui no mundo pode funcionar como uma espécie de gatilho para a alma se voltar ao que é superior. Essa ideia é bem platônica: o mundo sensível muda, engana e distrai, enquanto o inteligível é o nível das essências, do que é eterno e verdadeiro. O amor, então, não prende a alma ao que é passageiro; ao contrário, pode fazer você "criar asa" e desejar subir de novo rumo ao conhecimento e à contemplação do verdadeiro. Por isso o gabarito é a alternativa A. Em Platão, especialmente no Fedro e também no Banquete, o eros não é só paixão: ele pode ser um impulso de elevação espiritual e intelectual. A beleza visível desperta a lembrança da Beleza em si e ajuda a alma a sair da rotina do sensível. As demais opções vão na direção contrária do texto. O amor, aqui, não é obstáculo, nem simples válvula de descarga emocional, nem truque de sofistas e poetas. Em Platão, ele é justamente um caminho de ascensão da alma.