“Quanto ao 2º argumento, deve-se afirmar que talvez aquele que ouve o nome de Deus não entenda que ele designa algo que não se possa cogitar maior; pois alguns acreditaram que Deus é um corpo. Mas admitido que todos deem ao nome de Deus a significação que se pretende: maior que Ele não se pode cogitar, não se segue daí que cada um entenda que aquilo que é significado pelo nome exista na realidade, mas apenas na apreensão do intelecto. Nem se pode deduzir que exista na realidade, a não ser que se pressuponha que na realidade exista algo que não se possa cogitar maior, o que recusam os que negam a existência de Deus.” AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. São Paulo: Edições Loyola, 2009. O trecho citado mostra a refutação, por Tomás de Aquino, do argumento celebrizado por Anselmo de Cantuária. Assinale a opção que descreve corretamente este argumento.
- A)Deriva a existência de Deus como consequência necessária de sua definição.
Certa, porque o argumento ontológico de Anselmo deduz a existência de Deus a partir da própria definição de Deus como o ser maior que pode ser pensado.
- B)Encontra a evidência da existência de Deus na organização racional da realidade.
Errada, porque isso descreve um raciocínio cosmológico ou teleológico, não o argumento de Anselmo.
- C)Sustenta que a existência de Deus só se pode provar mediante revelação.
Errada, porque o argumento não depende de revelação, mas de uma dedução racional a partir do conceito de Deus.
- D)Faz a demonstração da existência de Deus a partir de princípios matemáticos.
Errada, porque não há demonstração por princípios matemáticos; a lógica do argumento é conceitual, não numérica.
- E)Toma a existência de Deus como necessária dada a cadeia causal da realidade.
Errada, porque a cadeia causal remete a prova cosmológica, enquanto Anselmo parte da definição de Deus, não das causas do mundo.
Gabarito: A
O trecho trata do famoso argumento ontológico de Anselmo de Cantuária. A ideia central é bem elegante: se você entende Deus como o ser do qual nada maior pode ser pensado, então a própria definição já empurraria a razão para a sua existência. Em resumo, não é um argumento baseado em observação do mundo, mas na análise do conceito de Deus. Parece um truque de lógica, e em parte é mesmo, porque ele tenta sair da ideia para a existência. Tomás de Aquino critica justamente esse salto. Para ele, só conhecer o nome ou a definição não basta para garantir que a coisa exista fora da mente. Ou seja, uma coisa pode existir na inteligência sem existir na realidade. Por isso, ele diz que a conclusão de Anselmo só funcionaria se já se admitisse previamente que existe algo que não pode ser pensado como maior. Então, o gabarito A está correto porque descreve exatamente o argumento ontológico: a existência de Deus é derivada como consequência da própria definição de Deus. Não se trata de prova pela natureza, pela matemática, pela cadeia causal ou por revelação. É uma demonstração racional a partir do conceito. Em linguagem de concurso: definição + lógica = existência. Simples, direto e famoso. Esse tema aparece muito em Filosofia medieval e na oposição entre fé e razão, especialmente quando se compara Anselmo e Tomás de Aquino. Anselmo aposta na força do intelecto; Tomás exige que a razão não confunda conceito com realidade.