“O curso dos acontecimentos deu ao gênio da época uma direção que ameaça afastá-lo mais e mais da arte do Ideal. Esta tem de abandonar a realidade e elevar-se, com decorosa ousadia, para além da privação; pois a arte é filha da liberdade e quer ser legislada pela necessidade do espírito, não pela privação da matéria. Hoje, porém, a privação impera e curva em seu jugo tirânico a humanidade decaída. A utilidade é o grande ídolo do tempo; quer ser servida por todas as forças e cultuada por todos os talentos.” SCHILLER, Friedrich. A educação estética do homem: numa série de cartas. São Paulo: Iluminuras, 1989. De acordo com o texto acima, é correto afirmar que o autor
- A)argumenta em favor da atribuição de um valor econômico à arte na modernidade.
Errada, porque Schiller não defende valor econômico para a arte, mas critica justamente a primazia da utilidade e do pragmatismo.
- B)afirma que a arte deve se livrar do jugo das necessidades do espírito para alcançar elevação.
Errada, porque o texto afirma que a arte deve ser legislada pela necessidade do espírito, e não se livrar dela.
- C)critica a arte de seu tempo por se fechar num antropocentrismo exacerbado.
Errada, porque o foco do texto não é antropocentrismo, e sim a oposição entre liberdade estética e utilitarismo material.
- D)contraria seu tempo ao defender uma menor valorização do espírito em favor da matéria.
Errada, porque Schiller não valoriza a matéria acima do espírito; ele faz o contrário e critica a submissão à privação material.
- E)reprova seu tempo por negligenciar a liberdade em favor do utilitarismo como valor supremo.
Certa, porque o autor critica sua época por colocar a utilidade acima da liberdade, reduzindo a vida humana a interesses práticos.
Gabarito: E
Schiller, nesse trecho, está defendendo uma ideia bem típica do idealismo alemão: a arte não deve se submeter ao mundo da utilidade imediata, das carências materiais e do cálculo prático. Para ele, a arte tem ligação com a liberdade e com o Ideal, isto é, com algo que eleva o ser humano acima da mera sobrevivência e do interesse utilitário. Repare na crítica central do texto: "a utilidade é o grande ídolo do tempo". Isso mostra que o autor vê sua época como dominada pelo pragmatismo, pela lógica de usar tudo e todos para fins materiais. Em vez de ampliar a liberdade humana, esse cenário aprisiona a humanidade na privação e reduz o valor da cultura ao que é funcional. Por isso, a alternativa correta é a que diz que Schiller reprova seu tempo por negligenciar a liberdade em favor do utilitarismo como valor supremo. Ele não está dizendo que a arte deve virar mercadoria, nem que deve se prender ao espírito no sentido de ficar menos livre. Ao contrário: a arte, para ele, é justamente o espaço em que a liberdade se expressa e supera a lógica da necessidade. Se você quiser um resumo de prova: Schiller = arte, liberdade, Ideal e crítica ao utilitarismo moderno. É a velha briga entre o que eleva o humano e o que o transforma em peça de engrenagem.