Sobre a forma maquiaveliana de pensar a política, a chamada “revolução maquiaveliana”, é correto afirmar que
- A)menospreza a consideração do acaso na vida política, uma vez que os acontecimentos podem ser previstos infalivelmente pelos que estudam a razão de Estado.
Errada, porque Maquiavel não menospreza o acaso: ao contrário, a fortuna tem papel central na vida política e impede previsões infalíveis.
- B)passa a conceber a política como arte da manutenção da justiça e do bem comum, tendo a tomada do poder como seu meio preferencial.
Errada, porque Maquiavel não define a política como arte do bem comum e da justiça; ele a trata como técnica de conquista e conservação do poder.
- C)entende a tirania como o regime político mais legítimo por concentrar as prerrogativas do poder e da lei em um único príncipe.
Errada, porque Maquiavel não afirma a tirania como regime mais legítimo, mas analisa formas de governo de modo pragmático, sem idealizar a tirania.
- D)retoma a noção aristotélica de virtude, considerando virtuoso o governante de origem aristocrática e de caráter constante.
Errada, porque ele não retoma a virtude aristotélica; sua virtù é capacidade prática, energia e habilidade política, não nobreza de origem nem constância moral.
- E)aborda a política como campo humano de disputa do poder, autônomo em relação aos objetivos da tradição religiosa.
Certa, porque expressa a autonomia da política em relação à religião e mostra a política como disputa humana pelo poder.
Gabarito: E
A chamada revolução maquiaveliana muda o jeito de olhar a política. Em vez de tratar o governo como um braço da moral religiosa ou como uma busca do “bem” em sentido abstrato, Maquiavel observa a política como ela realmente funciona: disputa, força, estratégia, alianças e manutenção do poder. É a política saindo da sala da confissão e entrando no palco da realidade, com todas as suas tensões. Em Maquiavel, o governante não é avaliado principalmente pela bondade da intenção, mas pela eficácia na condução do Estado. Por isso, ele separa a política da moral tradicional e da religião: o importante é preservar o Estado, conter a instabilidade e lidar com a fortuna, isto é, com o acaso e a imprevisibilidade da vida política. Por isso, a alternativa correta é a letra E. Ela resume bem essa autonomia da política em relação aos objetivos da tradição religiosa. Maquiavel não diz que a religião é inútil em qualquer sentido, mas afirma que a lógica política tem regras próprias e não pode ser julgada só pelos critérios da moral cristã. Em termos clássicos, isso aparece sobretudo em O Príncipe e nos Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Resumo de prova: para Maquiavel, política é campo de conflito e poder, e o governante virtuoso é o que sabe agir com prudência, firmeza e adaptação à fortuna. Se a banca quiser confundir você, ela vai tentar trocar essa visão realista por uma visão moralista, como se Maquiavel fosse um manual de bons modos para príncipes.