O filósofo Martin Heidegger leu de maneira crítica a modernidade como era da técnica. Em contraste com a ideologia iluminista do progresso, via de outro modo o avanço da ciência e o sucesso de suas aplicações no domínio sobre a natureza. Por este caminho, o homem estaria se afastando de uma dimensão fundamental da própria existência. Assinale a opção que identifica corretamente a crítica formulada por Heidegger à técnica.
- A)A expansão do domínio da máquina aliena o homem de sua essência e seu trabalho, ao torná-lo mera engrenagem econômica.
Errada, porque descreve alienação do trabalho em chave marxista, não a crítica heideggeriana da técnica.
- B)A degradação do meio ambiente afasta gradativamente o homem de sua dimensão vital, ao romper o seu elo com a natureza.
Errada, pois fala de degradação ambiental e rompimento com a natureza, tema importante, mas não é o foco filosófico central de Heidegger.
- C)O domínio tecnocientífico do mundo, por ser artificial e desmedido, coloca em risco a existência da espécie humana.
Errada, porque exagera a crítica em termos de risco à espécie humana, enquanto Heidegger trata principalmente do modo de revelação do ser pela técnica.
- D)A essência da técnica moderna veda acesso ao ser e disponibiliza indiscriminadamente os entes como recursos para uso.
Certa, porque expressa a ideia de que a técnica moderna enquadra o mundo como reserva de recursos e encobre o acesso ao ser.
- E)A autoridade social e política do discurso científico, ao se tornar inquestionável, coloca em risco a deliberação democrática.
Errada, porque trata da autoridade do discurso científico sobre a democracia, questão político-epistemológica diferente da crítica ontológica de Heidegger.
Gabarito: D
Para Heidegger, a técnica moderna não é só um conjunto de máquinas ou ferramentas. Ela expressa uma forma de ver o mundo em que tudo passa a ser medido, calculado e usado como recurso. Ou seja, a técnica vira um modo de desvelamento da realidade, e não apenas um instrumento neutro na mão do homem. O ponto central da crítica heideggeriana é que a modernidade técnica reduz os entes a algo disponível, explorável e manipulável. A natureza deixa de aparecer como aquilo que tem sentido próprio e passa a ser encarada como estoque, reserva ou matéria-prima. Esse enquadramento é o que ele chama de Gestell, a estrutura de ordenação que captura tudo na lógica do uso. Por isso, o risco não é apenas ambiental ou econômico, mas existencial: o ser humano também passa a se enxergar como peça de um sistema de produção e eficiência, afastando-se da pergunta pelo ser. Em vez de abrir espaço para a reflexão sobre o sentido da existência, a técnica moderna estreita o horizonte e domina o modo como pensamos. A alternativa D está correta porque traduz exatamente essa ideia: a essência da técnica moderna impede o acesso ao ser e transforma os entes em recursos disponíveis. Esse é o núcleo da crítica de Heidegger em textos como A questão da técnica, em que ele mostra que o problema não é a tecnologia em si, mas o modo de revelação que ela impõe ao mundo.