“É demasiado óbvia para deixar de ser notada por todos a extrema variedade de gostos que há no mundo, assim como de opiniões. Temos tendência para chamar bárbaro tudo o que se afasta muito de nosso gosto e de nossas concepções, mas depressa vemos que esse epíteto ou censura também pode sernos aplicado. É natural que procuremos encontrar um padrão de gosto, uma regra capaz de conciliar as diversas opiniões dos homens, pelo menos uma decisão reconhecida, aprovando uma opinião e condenando outra”. HUME, David. “Do padrão do gosto” in David Hume Os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1980, p. 319-320. Com base nos trechos, assinale a opção que identifica corretamente a posição assumida por Hume diante do problema do gosto.
- A)É impossível defender qualquer uniformização neste campo devido à total relatividade dos gostos.
Errada, porque Hume não defende um relativismo total; ele admite diversidade de gostos, mas também a busca por um padrão comum de julgamento.
- B)Tão natural quanto a variedade de gostos é a propensão humana em buscar um padrão para ele.
Certa, pois Hume reconhece a variedade dos gostos e, ao mesmo tempo, considera natural a tentativa humana de encontrar um critério para avaliá-los.
- C)Os clássicos devem ser tomados como padrão de gosto devido a seu valor estético e sua permanência.
Errada, porque Hume não estabelece os clássicos como padrão absoluto de gosto; ele não funda o critério estético apenas na tradição.
- D)O juízo de gosto depende dos estímulos prazerosos aos sentidos, a revelia do entendimento.
Errada, pois Hume não reduz o juízo de gosto a meros estímulos sensoriais nem exclui totalmente a discussão crítica sobre o gosto.
- E)É possível chegar a um padrão de beleza da ordem do racional por meio das categorias do intelecto.
Errada, porque Hume não acredita que o padrão da beleza seja obtido por categorias racionais do intelecto; sua abordagem é empirista, não racionalista.
Gabarito: B
Hume, no texto sobre o padrão do gosto, parte de um fato simples: as pessoas discordam muito sobre o que acham bonito, elegante ou agradável. Isso, para ele, não é surpresa nenhuma. O ponto importante é que, mesmo com essa variedade enorme, os seres humanos tendem a buscar algum critério para comparar e julgar os gostos, em vez de aceitar que tudo vale do mesmo jeito. Aí está a chave da questão: Hume não cai num relativismo absoluto, como se fosse impossível discutir gosto. Também não transforma o gosto em algo puramente racional, como se bastasse aplicar regras do intelecto. Ele reconhece a diversidade dos gostos, mas sustenta que é possível procurar um padrão, ainda que ele não seja matemático nem totalmente objetivo como uma fórmula. Então, quando a alternativa fala que a variedade de gostos é natural e que também é natural buscar um padrão para eles, ela resume exatamente a posição humeana. Em outras palavras: o mundo é diverso, mas o ser humano não desiste de comparar, avaliar e tentar encontrar critérios de apreciação. Essa leitura combina com a estética empirista de Hume: o gosto nasce da experiência e da sensibilidade, mas isso não impede que se busquem critérios compartilháveis para julgar obras e opiniões. Por isso o gabarito é a letra B.