“Confesso francamente: a lembrança de David Hume foi justamente o que há muitos anos interrompeu pela primeira vez meu sono dogmático e deu às minhas pesquisas no campo da filosofia especulativa uma direção completamente nova”. KANT, I. Prolegômenos. In Crítica da Razão Pura e outros textos filosóficos. São Paulo: Abril Cultural, 1974. Assinale a opção que identifica corretamente a nova direção filosófica tomada por Kant.
- A)Uma filosofia transcendental, que buscou estabelecer os limites da possibilidade do conhecimento humano.
Correta, porque expressa a virada transcendental de Kant, centrada nas condições e nos limites do conhecimento humano.
- B)Um retorno ao empirismo, que implicou num ceticismo em relação à possibilidade do conhecimento universal.
Errada, porque Kant não retorna ao empirismo nem assume um ceticismo total sobre o conhecimento universal.
- C)Uma nova metafísica racionalista, que se baseava na especulação lógico-matemática e da linguagem.
Errada, porque Kant não cria uma nova metafísica racionalista baseada em especulação lógico-matemática e linguagem.
- D)Um novo racionalismo, que buscou reafirmar e sistematizar os avanços da filosofia desde Descartes.
Errada, porque a proposta kantiana não é reafirmar o racionalismo clássico, mas criticá-lo e reconstruí-lo.
- E)Uma abordagem especulativa, que tentou fundamentar o conhecimento objetivo de Deus, da Alma e do Mundo.
Errada, porque Kant não quer fundamentar especulativamente Deus, alma e mundo como objetos de conhecimento teórico.
Gabarito: A
Kant é o nome mais famoso da chamada “virada crítica”. Depois de ler Hume, ele percebeu que não dava para continuar aceitando o conhecimento como se a mente apenas copiasse o mundo de forma passiva. A pergunta passou a ser outra: não “o que eu conheço?”, mas “como é possível conhecer?“. Essa mudança é o coração do criticismo kantiano. Daí nasce a filosofia transcendental. Em vez de tentar provar tudo sobre a realidade por pura especulação, Kant investiga as condições que tornam o conhecimento possível. Ele mostra que a experiência precisa de formas e estruturas do sujeito, como espaço, tempo e categorias do entendimento, para virar conhecimento válido. Isso significa estabelecer limites: a razão conhece os fenômenos, isto é, as coisas como aparecem para nós, mas não alcança diretamente o “em si” das coisas. Então, nada de sonho dogmático mesmo. Kant corta o excesso de confiança da metafísica tradicional e põe a razão no seu lugar, com crachá e limite de acesso. Por isso o gabarito é a letra A. A nova direção filosófica é justamente uma filosofia transcendental que busca delimitar as condições e os limites da possibilidade do conhecimento humano, tema central da Crítica da Razão Pura.