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Filosofia · FGV · 2022

Questão comentada de Filosofia

“São, portanto, os próprios povos que se deixam ou, ainda, se fazem maltratar, pois ao pararem de servir estariam livres; é o povo que se subjuga, que corta a própria garganta, que, podendo escolher entre servir ou ser livre, abandona a liberdade e toma o jugo, que consente com seu infortúnio e, até mesmo, o busca”. No trecho acima, Étienne de La Boétie (1530-1563) expõe um problema ao qual dedicou seu pensamento, isto é, o problema

Gabarito: C

Etienne de La Boétie, no texto clássico Discurso da servidão voluntária, tenta explicar um fenômeno bem incômodo: como um povo inteiro pode aceitar a própria dominação, mesmo tendo a possibilidade de ser livre. A ideia central não é que exista uma força mágica obrigando todo mundo o tempo todo, mas que a obediência muitas vezes se sustenta pelo consentimento, pelo hábito e pelo medo. Em outras palavras, a tirania não vive só da força do governante, mas também da acomodação dos governados. Por isso, o trecho fala em servidão voluntária. Parece contraditório, e é exatamente esse o ponto de La Boétie: a pessoa ou o povo se submetem, de certa forma, por escolha, costume ou resignação, como se entregassem a própria liberdade. A servidão, então, não é apenas imposta de fora; ela é alimentada de dentro pela aceitação do jugo. Esse tema é diferente de contrato social, porque aí estamos falando de uma teoria sobre a origem legítima do Estado em autores como Hobbes, Locke e Rousseau. Também não se trata de estado de natureza nem de vontade geral, que são conceitos do pensamento contratualista, especialmente em Rousseau. E não tem relação com luta de classes, que é um conceito ligado ao marxismo, não a La Boétie. Assim, o gabarito C está correto porque o texto descreve exatamente a servidão voluntária: a submissão que se mantém porque os próprios dominados consentem com ela, deixam de resistir e acabam sustentando a própria opressão.

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