O método científico, que levou à dominação cada vez mais eficaz da natureza, passou, assim, a fornecer tanto os conceitos puros quanto os instrumentos para a dominação cada vez mais eficaz do homem pelo homem através da dominação da natureza. Hoje a dominação se perpetua e se estende não apenas através da tecnologia, mas enquanto tecnologia, e esta garante a formidável legitimação do poder político em expansão que absorve todas as esferas da cultura. (MARCUSE, H. Apud. HABERMAS, J. Técnica e ciência enquanto ideologia, p. 315-16.) Marcuse viveu para assistir e sentir os efeitos de muitos fatores que teorizou. Fez vários discursos engajados nos Estados Unidos e na Europa durante os anos 70. Segundo ele:
- A)A tecnologia só consegue submeter aqueles indivíduos que, em busca de ampliar as comodidades da vida, esquecem-se do que é realmente essencial.
Errada, porque reduz a crítica de Marcuse a um problema de comportamento individual, quando ele fala de uma estrutura social de dominação.
- B)O sistema capitalista, como sistema realmente mais racional que é, “cobra muito caro” pelo que proporciona de progresso à humanidade como um todo.
Errada, porque Marcuse não vê o capitalismo como plenamente racional e benéfico, mas como um sistema que usa a técnica para ampliar o controle social.
- C)A ciência não pode ser pensada como um setor da sociedade, no qual um grupo trabalha desinteressadamente no desenvolvimento do conhecimento humano.
Certa, porque expressa a crítica de que a ciência não é neutra nem isolada, mas está inserida nas relações sociais e pode servir à dominação.
- D)Nem com uma redefinição dos rumos do desenvolvimento tecnológico poderia ocorrer uma reorientação global da estrutura social para sempre corrompida.
Errada, porque o autor não afirma uma impossibilidade absoluta de mudança, e sim critica o modo como a racionalidade técnica sustenta a ordem social vigente.
Gabarito: C
Marcuse, ligado à Escola de Frankfurt, criticou a ideia de que a técnica e a ciência seriam neutras e sempre benéficas. Para ele, no capitalismo avançado, ciência e tecnologia deixam de ser apenas ferramentas de conhecimento e passam a integrar o próprio modo de dominação social. Ou seja, a tecnologia não serve só para facilitar a vida: ela também organiza o controle, a produção e até os desejos das pessoas. A fala do enunciado segue exatamente essa linha: a dominação não ocorre apenas “por meio” da tecnologia, mas “enquanto” tecnologia. Isso significa que o avanço técnico não é só um conjunto de máquinas ou métodos, mas um modelo racional que legitima e expande o poder político e econômico. É uma crítica clássica ao positivismo ingênuo, que trata a ciência como atividade pura, neutra e desinteressada. Por isso, o gabarito é a letra C. Marcuse não aceita a ideia de que a ciência possa ser pensada como um setor isolado da sociedade, onde um grupo trabalha apenas pelo bem do conhecimento humano, sem implicações políticas e sociais. Para ele, ciência e técnica estão inseridas nas relações de poder e podem reforçar a dominação existente. Em resumo: na perspectiva marcuseana, o problema não é a tecnologia em si, mas o uso social que ela recebe dentro de uma sociedade organizada pela dominação. A crítica dele é certeira justamente porque mostra que até o que parece mais “neutro” pode carregar ideologia.