Os estoicos fiavam-se em uma distinção entre a causa antecedente ou externa e a causa principal ou “interna” com o intuito de explicar como os seres humanos são parte da rede de interconexões causais, de modo que haja espaço para a responsabilidade pessoal. A justificativa estoica consiste em fazer das causas internas, embora não das externas, as causas principais das ações humanas. Embora o ambiente aja sobre nós de um modo que não está em nosso poder, nossas reações “estão em nosso poder”, visto que dependem de nosso estado interior. A visão da beleza provoca amor em um homem desgovernado (akólastos). A visão da beleza é a causa antecedente. A reação da pessoa está, no entanto, “em seu poder”, visto que sua atitude amorosa com a beleza física é, afinal de contas, parte de sua constituição interna; e não é causada pela impressão externa. (FREDE. 2006, p. 212.) Que elementos e que condições tornam o homem feliz? De acordo com textos antigos, essa já era uma preocupação existente. Uma das perspectivas filosóficas sobre o tema era a dos estoicos que afirmavam, dentre outros fatores, que:
- A)É feliz aquele que vive de acordo com a ordem cósmica, aceitando e amando o próprio destino nela inscrito.
Correta, porque expressa a ideia estoica de viver em conformidade com a ordem do cosmos e aceitar o destino com serenidade.
- B)Consegue atingir seu fim e bem supremo (a felicidade) aquele que atuar conforme sua virtude essencial, ou seja, a razão.
Errada, pois associa felicidade apenas à razão como fim supremo de modo mais próximo de outras éticas filosóficas, não do núcleo estoico pedido na questão.
- C)A felicidade só é alcançada no âmbito social, ou seja, o indivíduo só será feliz em uma comunidade plenamente organizada e feliz.
Errada, porque desloca a felicidade para a organização social, o que não define a ética estoica.
- D)Alcança a felicidade aquele que consegue a satisfação plena dos seus desejos. Felicidade é fundamentalmente prazer, pois tudo no mundo é matéria.
Errada, porque reduz felicidade a prazer e satisfação dos desejos, tese incompatível com o estoicismo.
Gabarito: A
Os estoicos pensavam a felicidade como algo que não depende de sorte, luxo ou prazer imediato. Para eles, o mundo é regido por uma ordem racional, o logos, e a vida boa é aquela vivida em harmonia com essa ordem. Em vez de lutar contra o que não controla, o sábio aprende a aceitar o destino com serenidade. É aquela postura de quem olha para a tempestade e pensa: “não controlo o vento, mas controlo a vela”. Por isso, a felicidade estoica não está em conseguir tudo o que se deseja, mas em ajustar a vontade humana à natureza do cosmos. O homem feliz é o que vive conforme a razão, domina as paixões e não se deixa escravizar por eventos externos. A liberdade, aqui, é interna: consiste em não ser refém do que acontece fora de você. A alternativa A está correta porque resume exatamente essa ideia estoica: ser feliz é viver de acordo com a ordem cósmica, aceitando e amando o próprio destino, isto é, praticando a famosa atitude de consentimento ao que a vida traz. Isso se aproxima do conceito de amor fati, muito associado à tradição estoica, ainda que a expressão seja mais explorada depois em outras correntes. Já as demais alternativas seguem outras linhas filosóficas: a B lembra mais o racionalismo ético de matriz aristotélica, a C faz uma aposta na dimensão social da felicidade, e a D é claramente hedonista/materialista. Em concursos, quando aparecer estoicismo, pense em autocontrole, razão, virtude e aceitação do destino.