O povo tupi-guarani acreditava em um deus supremo, que chamavam de deus do trovão e o denominavam “Tupã”. Os índios acreditavam que a voz deste ente supremo podia ser ouvida durante as tempestades. O trovão, eles chamavam de “Tupacinunga”, e seu reflexo luminoso de “Tupãberaba” (relâmpago). Eles acreditavam que este era o deus da criação, o deus da luz, e sua morada seria o sol. Acreditavam, também, em um deus do sol (Guaraci) e em uma deusa da lua (Jaci). O deus do sol seria o criador de todos os seres vivos (devido ao sol ser importante nos processos biológicos na natureza) e Jaci seria a rainha da noite e dos homens. Segundo a lenda, ela teria sido esposa de Tupã. (Disponível em: http://mitologiabrasileira.blogspot.com.br/ 2013/03/mitologia-brasileira-panteao-tupi.html.) Ao nos referimos a povos diferentes, corre-se o risco do exotismo e da comparação depreciativa, ou seja, um etnocentrismo. No entanto, em uma análise mais ampla, o mito é considerado, dentre outros fatores, nas sociedades tribais:
- A)A representação fantasiosa e dissociada de qualquer ligação com a realidade, típica de povos com raciocínios mais elementares.
Errada, porque reduz o mito a fantasia irracional e despreza seu valor cultural e explicativo nas sociedades tribais.
- B)O subterfúgio básico da realidade, que garantia a sobrevivência hierárquica da sociedade sem contendas ou desarmonia entre os povos.
Errada, porque exagera ao dizer que o mito era apenas um subterfúgio para manter hierarquias, ignorando sua função simbólica e existencial.
- C)Uma forma de o ser humano se situar no mundo, encontrar o seu lugar entre os demais seres da natureza e com o grupo ao qual pertence.
Certa, porque o mito ajuda o ser humano a se orientar no mundo, a compreender a natureza e a se reconhecer no grupo ao qual pertence.
- D)A forma exclusiva e intrínseca que cada indivíduo de uma comunidade primitivamente organizada encontrava de impor a sua individualidade.
Errada, porque o mito não é a forma exclusiva de impor individualidade, mas uma construção coletiva de sentido e identidade.
Gabarito: C
A questão trabalha a noção de mito nas sociedades tribais, especialmente em contraste com uma visão etnocêntrica, que costuma julgar o outro como “atrasado” ou “irracional”. Na Filosofia, mito não é só uma história fantasiosa: ele organiza a experiência humana, explica a origem das coisas, dá sentido ao mundo e ajuda o grupo a se reconhecer como parte da natureza e da comunidade. Nas sociedades tribais, o mito funciona como uma espécie de mapa simbólico. Ele orienta comportamentos, valores, medos e pertencimento. Em vez de ser uma simples invenção sem utilidade, o mito responde à pergunta “quem sou eu no mundo?” e “qual é o meu lugar entre os outros seres?”. Por isso, o gabarito é a letra C. Ela descreve justamente essa função do mito: situar o ser humano no mundo, encontrar seu lugar entre os seres da natureza e com o grupo ao qual pertence. Essa leitura é bem próxima da abordagem antropológica e filosófica que evita a comparação depreciativa entre culturas. As demais alternativas caem em armadilhas típicas de prova, porque reduzem o mito a algo inferior, meramente fantasioso ou manipulatória. Em vez de ver o mito como linguagem de sentido e organização social, elas o tratam como erro, mentira ou ferramenta de dominação pura e simples.