Muitos imaginaram repúblicas e principados que jamais foram vistos e que nem se soube se existiram na verdade, porque há tamanha distância entre como se vive e como se deveria viver que aquele que abandona o que se faz por aquilo que se deveria fazer aprende antes a arruinar-se que a preservar-se. Eis por que é necessário a um príncipe que quiser manter-se, aprender a poder não ser bom e a valer-se ou não disso segundo a necessidade. Nicolau Maquiavel. O Príncipe. Ed. Martins Fontes (com adaptações). Considerando-se o texto precedente, é correto afirmar que Maquiavel recomenda ao príncipe, isto é, ao governante, que este
- A)aja sempre de acordo com os valores morais cristãos estabelecidos, o que requer que ele seja bom a despeito da necessidade.
Errada, porque Maquiavel não recomenda que o príncipe siga sempre a moral cristã, já que a necessidade política pode exigir atitudes contrárias a essa moral.
- B)guie sua conduta a partir de como a república ou o principado deve ser, tendo como propósito uma ideia de perfectibilidade humana.
Errada, porque o texto rejeita justamente a ideia de governar com base em como a república ou o principado deveriam ser, em nome de uma política idealizada.
- C)conduza as suas ações a partir de como as coisas são, e não como elas deveriam ou poderiam ser, o que requer que ele faça o que for necessário, mesmo que não seja bom.
Certa, porque expressa a visão realista de Maquiavel: agir conforme a realidade e a necessidade, mesmo quando isso implique não agir de modo bom.
- D)tenha como modelo repúblicas ou principados imaginários, utilizando métodos descritos como maus para que aqueles se tornem reais.
Errada, porque Maquiavel critica repúblicas e principados imaginários, não recomenda que eles sejam usados como modelo.
- E)busque a harmonia entre as diversas facções que constituem uma república ou principado por medidas que favoreçam a moralidade das ações em todas as circunstâncias.
Errada, porque o autor não coloca a harmonia moral entre facções como objetivo central; o foco é a manutenção do poder e do Estado.
Gabarito: C
Maquiavel rompe com a tradição política idealista, aquela que fica desenhando governos perfeitos no papel, mas que não existem na vida real. Em O Príncipe, ele olha para a política como ela funciona de fato: disputa de poder, interesse, conflito e necessidade. Por isso, seu foco não é perguntar como o governante deveria ser segundo a moral, e sim como ele precisa agir para manter o Estado e conservar o poder. A ideia central do trecho é bem famosa: o príncipe deve aprender a não ser bom quando a situação exigir. Isso não significa defender a maldade por prazer, mas reconhecer que, na política, a sobrevivência do governo às vezes depende de decisões duras, prudentes e até moralmente desconfortáveis. Em Maquiavel, a eficácia política pesa mais do que a moral cristã tradicional. Assim, o gabarito C está correto porque traduz exatamente essa lógica realista: o governante deve conduzir suas ações com base no que as coisas são, e não no que deveriam ser, fazendo o necessário para preservar o poder e a ordem. É a política do mundo concreto, não do reino da perfeição imaginária. Se quiser guardar uma frase-chave: Maquiavel troca o ideal pelo real. Ele não escreve um manual de virtudes, mas um manual de sobrevivência política.