Primeiro, então, se algo foi dito com acerto e detalhadamente pelos pensadores anteriores, passemos em revista a sua contribuição; depois, à luz das constituições que colecionamos, examinemos as instituições que preservam ou destroem as cidades, e as que preservam ou destroem as várias espécies de constituições, e as razões pelas quais umas cidades são bem administradas e outras, ao contrário, são mal administradas. Quando tivermos estudado convenientemente estes assuntos é mais provável que possamos ver de maneira mais abrangente qual das várias espécies de constituição é a melhor, e como cada constituição deve ser estruturada, e quais as leis e costumes que uma constituição deve incorporar para ser a melhor. Aristóteles. Ética a Nicômaco. Do conjunto da obra de Aristóteles, é correto afirmar que
- A)as noções de justiça e cidadania se completam reciprocamente na teoria do conhecimento.
Errada, porque justiça e cidadania não se completam na teoria do conhecimento, e sim no campo ético-político.
- B)as noções de ética e política se excluem no estudo das diferentes constituições.
Errada, porque em Aristóteles ética e política não se excluem; elas se articulam de forma complementar.
- C)as noções de ética e política se completam reciprocamente na teoria da justiça.
Certa, pois a teoria aristotélica da justiça liga a formação moral do indivíduo à organização política da cidade.
- D)as noções de constituição e lei se completam reciprocamente na teoria do conhecimento.
Errada, porque constituição e lei pertencem à reflexão política, não à teoria do conhecimento.
- E)as noções de constituição e cidadania se contradizem no estudo da teoria da justiça.
Errada, porque constituição e cidadania não se contradizem; ambas integram a análise da justiça e da vida na pólis.
Gabarito: C
Aristóteles não separa filosofia em caixinhas isoladas: para ele, a vida boa do indivíduo e a organização da cidade caminham juntas. Em sua obra, especialmente na conexão entre Ética a Nicômaco e Política, a ética estuda a finalidade da ação humana e a política organiza a vida coletiva para possibilitar essa finalidade. Ou seja, a cidade existe para favorecer a vida virtuosa, e a virtude do cidadão só faz sentido dentro de uma comunidade política bem ordenada. Por isso, quando o texto fala em examinar constituições, leis, costumes e os fatores que preservam ou destroem as cidades, Aristóteles está justamente ligando ética e política. A justiça, nesse contexto, é uma virtude central porque ordena as relações entre as pessoas e sustenta a pólis. Não é uma relação de exclusão, mas de complementaridade: a política cria as condições institucionais, e a ética orienta a conduta justa dos indivíduos. O gabarito C está correto porque expressa essa articulação clássica do pensamento aristotélico: ética e política se completam reciprocamente na teoria da justiça. Para Aristóteles, a justiça é a virtude que mais claramente mostra essa ponte entre o bem do indivíduo e o bem comum. Em termos bem diretos, não dá para falar de cidadão virtuoso sem cidade justa, nem de cidade justa sem cidadãos formados para a virtude. Esse é um ponto muito cobrado em concursos: Aristóteles pensa a política como continuidade da ética, e não como um campo desconectado dela. Então, se a questão trouxer constituição, leis, cidadania e justiça no mesmo pacote, acenda o alerta: ele está olhando para a vida moral dentro da pólis.