Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa — em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos — em suma: tudo quanto não seja ação nossa. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves, tu te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os deuses como os homens. Mas se pensares teu unicamente o que é teu, e o que é de outrem, como o é, de outrem, ninguém jamais te constrangerá, ninguém te fará obstáculos, não censurarás ninguém, nem acusarás quem quer que seja, de modo algum agirás constrangido, ninguém te causará dano, não terás inimigos, pois não serás persuadido em relação a nada nocivo. Internet:www.devitastoica.com. Tradução de Aldo Dinucci. Ao tratar da distinção entre o que depende de nós e o que não depende de nós, o texto precedente apresenta princípios filosóficos do
- A)idealismo.
Errada, porque o idealismo não é a doutrina que organiza a vida moral pela distinção entre o que depende e o que não depende de você.
- B)epicurismo.
Errada, porque o epicurismo busca o prazer moderado e a ausência de perturbação, mas o texto é mais característico do estoicismo.
- C)estoicismo.
Certa, porque o trecho é de inspiração estoica e destaca o controle sobre juízo, impulso, desejo e repulsa.
- D)empirismo.
Errada, porque o empirismo trata da origem do conhecimento na अनुभवiência, e não dessa ética do autocontrole.
- E)ceticismo.
Errada, porque o ceticismo questiona a possibilidade de conhecimento seguro, enquanto o texto apresenta uma orientação moral bem definida.
Gabarito: C
A questão traz uma ideia central da filosofia estoica: existe aquilo que depende de você e aquilo que não depende. Para os estoicos, sua liberdade real está no governo da mente, isto é, no juízo, no impulso, no desejo e na repulsa. Em outras palavras: você não controla o mundo, mas pode controlar sua atitude diante dele. O resto, como corpo, fama, dinheiro e cargos, é instável e não deve ser tratado como se estivesse sob seu comando. Esse trecho é muito conhecido na tradição de Epicteto, um dos principais nomes do estoicismo. A lógica é simples e poderosa: se você colocar sua felicidade em coisas externas, vai viver à mercê do acaso e da opinião alheia. Se concentrar sua atenção no que é interior e voluntário, ganha tranquilidade e autonomia. É quase uma aula de autocontrole com toga. Por isso o gabarito é C. O texto defende exatamente a separação entre o que está sob nossa alçada e o que não está, ideia típica do estoicismo, que valoriza a serenidade, a virtude e a aceitação racional do que não pode ser mudado. Não é uma teoria do conhecimento nem uma defesa de prazer como fim da vida, mas uma ética de domínio de si. Em concursos, quando aparecer esse tipo de distinção entre controle interno e coisas externas, pense em Epicteto e nos estoicos. A banca gosta de cobrar essa noção como princípio ético: liberdade verdadeira não é fazer tudo o que quer, e sim querer corretamente o que depende de você.