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Filosofia · CESPE/CEBRASPE · 2021

Questão comentada de Filosofia

— Não tens vergonha nenhuma, Sócrates, e interpreta as coisas de maneira a desvirtuares o meu argumento. — De modo algum, meu excelente amigo. Mas explica mais claramente o que queres dizer. — Pelo visto não sabes – prosseguiu ele – que, dentre os Estados, há os que vivem sob o regime da monarquia, outros da democracia, e outros da aristocracia? — Como não havia de sabê-lo? — Ora, em cada Estado, não é o governo que detém a força? — Exatamente. — Certamente que cada governo estabelece as leis de acordo com sua conveniência: a democracia, leis democráticas; a monarquia, monárquicas; e os outros, da mesma maneira. Uma vez promulgadas essas leis, fazem saber que é justo para os governos aquilo que lhes convém, e castigam os transgressores, a título de que violaram a lei e cometeram uma injustiça. Aqui tens, meu excelente amigo, aquilo que eu quero dizer, ao afirmar que há um só modelo de justiça em todos os Estados – o que convém aos poderes constituídos. Ora estes é que detêm a força. De onde resulta, para quem pensar corretamente, que a justiça é a mesma em toda a parte: a conveniência do mais forte. Platão. A República Do embate entre Trasímaco e Sócrates é possível constatar que as teses de Trasímaco sobre a justiça

Gabarito: D

Na cena de A República, Platão faz Sócrates discutir com Trasímaco uma ideia bem provocadora: a de que a justiça seria apenas aquilo que convém ao mais forte. Traduzindo para o português claro: quem manda faz a regra, e a regra vira “justa” porque protege quem está no comando. É uma visão forte, crítica e meio desconfortável, justamente para ser debatida. O ponto central aqui é que Trasímaco não está falando o mesmo que Platão. Na verdade, Platão usa Trasímaco como um adversário filosófico para apresentar e depois contestar essa tese. Para Platão, especialmente na construção da cidade justa, a justiça não pode ser reduzida ao interesse do governante, porque ela deve estar ligada à ordem, à harmonia e ao bem da pólis. Por isso, o gabarito é a letra D. As teses de Trasímaco sobre a justiça se distinguem das de Platão, porque elas representam uma visão cética e relativizada do direito e da justiça, enquanto Platão busca um conceito mais objetivo e moralmente fundado. Em concurso, quando aparecer diálogo socrático, desconfie: nem sempre a fala de um personagem expressa a posição do autor. Resumo de prova: Trasímaco = justiça como vantagem do mais forte; Platão = justiça como algo que organiza e aperfeiçoa a cidade e a alma. Não confunda personagem com pensador. Em filosofia antiga, isso derruba muita questão.

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