No século XIX, o filósofo alemão Hegel faz uma leitura otimista da função do trabalho na célebre passagem "do senhor e do escravo", descrita na Fenomenologia do espírito: dois indivíduos lutam entre si e um deles sai vencedor, podendo matar o vencido. Este, no entanto, prefere submeter-se, para poupar a própria vida. A fim de ser reconhecido como senhor, o vencedor conserva o outro como servo. O servo submetido tudo faz para o senhor, mas, com o tempo, o senhor descobre que não sabe fazer mais nada, porque, entre ele e o mundo, colocou o servo, e ele é que domina a natureza. Maria Lúcia de Aranha. Filosofia: introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 2009, p. 69 (com adaptações). Considerando-se as informações do texto precedente, é correto afirmar que, de acordo com Hegel, o servo recupera a sua liberdade porque o trabalho se torna a
- A)expressão da liberdade reconquistada.
Correta: em Hegel, o trabalho permite ao servo desenvolver consciência de si e reconquistar autonomia.
- B)expressão da opressão do servo.
Errada: embora o trabalho nasça em contexto de submissão, Hegel destaca seu potencial libertador, não apenas opressor.
- C)certificação do mando.
Errada: o trabalho não certifica o mando do senhor; ao contrário, revela a dependência dele em relação ao servo.
- D)materialização da servidão.
Errada: a servidão é o ponto de partida da relação, mas o trabalho não se reduz a materializá-la, pois também rompe essa condição.
- E)justificativa da escravidão
Errada: Hegel não trata o trabalho como justificativa da escravidão, e sim como caminho de superação da dependência.
Gabarito: A
Hegel usa a famosa relação entre senhor e escravo para mostrar que a liberdade humana não nasce só de mandar ou ser reconhecido, mas também da transformação da realidade pelo trabalho. Parece contraditório, mas é justamente o servo, ao trabalhar a natureza, que aprende a lidar com o mundo, desenvolve consciência de si e deixa de depender apenas do medo imediato. Em outras palavras, o trabalho deixa de ser apenas punição e vira escola de autonomia. No começo da história, o senhor aparenta vitória. Só que ele fica dependente do trabalho do servo para ter conforto, bens e até para se relacionar com a realidade. Já o servo, ao enfrentar a matéria e moldá-la, percebe sua própria força e sua capacidade de criar. Hegel vê aí um processo de formação da consciência: o trabalho educa, disciplina e liberta. Por isso, a letra A está correta: para Hegel, o trabalho se torna expressão da liberdade reconquistada. Não é uma liberdade pronta e mágica, mas uma liberdade construída na prática, no esforço e na superação da dependência. A ideia central é que o servo, por meio do trabalho, recupera a si mesmo e amplia sua autonomia. Em linguagem bem de prova: o trabalho, em Hegel, não é só submissão. Ele também é mediação para a emancipação. É o tipo de resposta que a banca gosta quando mistura filosofia com processo histórico e consciência.