A via intranasal é explorada para a liberação de fármacos na corrente sanguínea, oferecendo vantagens sobre a via oral como por exemplo, ação rápida e evitar o metabolismo hepático e gastrointestinal pré-sistêmico, especialmente para fármacos proteicos, peptídicos e polipeptídicos. Dentre as variadas estratégias farmacotécnicas para melhorar a biodisponibilidade intranasal de fármacos proteicos e peptídicos, analise as afirmativas a seguir. I. O pH da formulação deve favorecer a estabilidade ideal do fármaco e maximizar a quantidade do fármaco sob a forma não ionizada. II. A baixa permeabilidade dos fármacos peptídicos e proteicos hidrofílicos pode ser contornada pelo uso de pro-fármacos e/ou promotores de absorção, como tensoativos e/ ou fosfolipídeos. III. Polímeros mucoadesivos prejudicam a biodisponibilidade intranasal devido à alta viscosidade e aumento da retenção no local e consequentemente a absorção sistêmica fica reduzida, principalmente para fármacos hidrofílicos. Está correto o que se afirma em
- A)I, apenas
A alternativa afirma que somente a afirmativa I está correta. A I está de acordo com a farmacotécnica intranasal, porque o pH da formulação deve preservar a estabilidade do fármaco e favorecer a maior fração não ionizada, que atravessa melhor a mucosa. O erro está em excluir a II, pois pró-fármacos e promotores de absorção são estratégias clássicas para superar a baixa permeabilidade de peptídeos e proteínas.
- B)II, apenas
A alternativa sustenta que apenas a afirmativa II está correta. A II realmente descreve uma estratégia válida, porque pró-fármacos e agentes como tensoativos e fosfolipídeos podem aumentar a permeação de moléculas hidrofílicas. Contudo, a I também procede, já que o ajuste de pH é importante para estabilidade e para a proporção não ionizada do fármaco, então a alternativa falha ao desconsiderá-la.
- C)I e II, apenas.
A alternativa diz que as afirmativas I e II estão corretas, e é exatamente isso que ocorre. A I está correta porque, na via intranasal, o pH deve conciliar estabilidade do fármaco com maior fração não ionizada, favorecendo a difusão pela mucosa. A II também está correta, pois pró-fármacos e promotores de absorção, como tensoativos e fosfolipídeos, são usados para contornar a baixa permeabilidade de peptídeos e proteínas.
- D)II e III, apenas.
A alternativa reúne as afirmativas II e III. A II é verdadeira pelos mecanismos de aumento de permeação já conhecidos, mas a III está conceitualmente invertida: polímeros mucoadesivos costumam prolongar o tempo de residência na cavidade nasal e, em geral, favorecer a absorção sistêmica, inclusive de fármacos hidrofílicos. Eles podem elevar a viscosidade, mas isso não significa, como regra, prejuízo à biodisponibilidade; por isso a alternativa está errada e ainda deixa de incluir a I.
- E)I, II e III.
A alternativa afirma que I, II e III estão corretas. As duas primeiras têm fundamento, mas a III não procede, porque polímeros mucoadesivos são empregados justamente para aumentar a retenção do fármaco na mucosa nasal e melhorar a absorção, não para reduzi-la de modo geral. Assim, a inclusão da III invalida a alternativa.
Gabarito: C
A via intranasal é muito cobrada porque ela tenta “driblar” dois problemas clássicos da via oral: a degradação no trato gastrointestinal e o metabolismo de primeira passagem no fígado. Por isso, ela pode ser ótima para fármacos que precisam agir rápido e para moléculas mais delicadas, como peptídeos e proteínas. O desafio é simples na teoria e chato na prática: a mucosa nasal tem barreiras de permeação, muco, clearance mucociliar e espaço de absorção limitado. Na afirmativa I, o raciocínio está correto. Ajustar o pH da formulação ajuda a manter o fármaco estável e, quando possível, favorece a fração não ionizada, que costuma atravessar melhor a membrana. Em farmacotécnica, isso é uma estratégia básica para melhorar absorção sem “agredir” demais a mucosa. A afirmativa II também está correta. Como peptídeos e proteínas são, em geral, hidrofílicos e pouco permeáveis, pode-se lançar mão de pro-fármacos e de promotores de absorção, como tensoativos e fosfolipídeos, para facilitar a passagem pela mucosa nasal. É a clássica engenharia de formulação tentando abrir caminho para moléculas grandes demais para passar “de primeira”. Já a afirmativa III está errada. Polímeros mucoadesivos não prejudicam necessariamente a biodisponibilidade; na verdade, eles costumam aumentar o tempo de contato da formulação com a mucosa, o que pode favorecer a absorção. O ponto de atenção é que viscosidade excessiva pode atrapalhar, mas a ideia geral dos polímeros mucoadesivos é melhorar, não piorar, a permanência e a absorção. Por isso, o gabarito é C: apenas I e II estão corretas.