O uso concomitante de medicamentos pode provocar eventos adversos graves. Desfechos negativos envolvendo medicamentos com ação no sistema nervoso central, de uso frequente em hospitais, são também conhecidas pelo grande público, visto o número de artistas que parecem ter sido vítimas fatais de interações medicamentosas. (Folha de São Paulo, 7 de fevereiro de 2008). Sobre as interações medicamentosas envolvendo fármacos com ação no sistema nervoso central, assinale a afirmativa correta.
- A)A fluoxetina é um indutor da isoenzima CYP2C9 e pode aumentar o metabolismo da carbamazepina.
Errada: a fluoxetina é principalmente inibidora de CYP2D6, não indutora de CYP2C9, e não costuma aumentar o metabolismo da carbamazepina.
- B)Oxicodona, hidrocodona e alprazolam são inibidores da isoenzima CYP4A4 que provocam dilatação da pupila e redução da frequência cardíaca.
Errada: oxicodona, hidrocodona e alprazolam são, em geral, substratos de CYP3A4, não inibidores, e a descrição de midríase e bradicardia não corresponde a essa afirmação.
- C)Valproato de sódio reduz os níveis séricos de benzodiazepínicos como o lorazepam e o temazepam, ao aumentar a glucuronidação desses fármacos.
Errada: o valproato não reduz esses benzodiazepínicos por aumentar glucuronidação; na prática, ele tende a inibir metabolismo de alguns fármacos e não a diminuir lorazepam e temazepam dessa forma.
- D)Fentanil e codeína são substratos da isoenzima CYP3A4. Assim, a conversão de codeína em morfina é influenciada pelo fentanil.
Errada: a codeína é ligada ao CYP2D6 para virar morfina, e o fentanil não influencia essa conversão; além disso, fentanil é principalmente metabolizado por CYP3A4, mas isso não torna a relação descrita correta.
- E)Propofol, barbitúricos e halotano parecem interagir com benzodiazepínicos devido aos seus efeitos sobre o ácido gama-aminobutírico (GABA).
Certa: propofol, barbitúricos e halotano podem somar depressão do SNC com benzodiazepínicos e potencializar efeitos mediados pelo sistema GABAérgico.
Gabarito: E
Interações medicamentosas no sistema nervoso central costumam ser perigosas porque muitos fármacos somam efeitos no cérebro e na respiração. O problema nem sempre é só “um remédio aumentar o outro”; às vezes a interação é farmacodinâmica, isto é, os dois atuam no mesmo caminho e o efeito final fica maior do que o esperado. Isso é muito comum com sedativos, hipnóticos e anestésicos. Os benzodiazepínicos, por exemplo, atuam no receptor GABA-A, aumentando a ação inibitória do GABA. Barbitúricos e propofol também potencializam esse sistema, embora por mecanismos diferentes, e o halotano pode deprimir o SNC e somar depressão com esses fármacos. Resultado prático: mais sedação, mais risco de queda, coma e depressão respiratória. A farmacologia aqui é meio “efeito dominó”. Por isso, a alternativa E está correta: propofol, barbitúricos e halotano podem interagir com benzodiazepínicos principalmente por efeito sobre o GABA e pela soma de depressão do SNC. Não é uma interação de metabolismo, mas de efeito farmacológico. Em prova, quando aparecer GABA + sedativos/anestésicos, pense logo em potencialização do efeito depressor central. As demais alternativas misturam enzimas, substratos e inibidores de forma incorreta. A banca gosta justamente dessa confusão entre CYPs, especialmente CYP3A4 e CYP2D6, e entre indução, inibição e substrato. Se você separar “quem metaboliza”, “quem inibe” e “quem é metabolizado”, já elimina boa parte das pegadinhas.