O destaque das cápsulas gelatinosas rígidas (ou duras) entre as formas farmacêuticas sólidas é justificado por suas vantagens, tanto de produção como de uso pelo paciente, salientando-se a boa proteção oferecida ao fármaco e, em alguns casos, a liberação prolongada destes. A composição da cápsula a seguir se refere a uma formulação de liberação prolongada (LP) comercialmente disponível, indicada no tratamento da cardiopatia isquêmica. Cada cápsula contém: dicloridrato de trimetazidina (CTR) 80 mg (equivalente a 62,81 mg de trimetazidina). Excipientes: esferas (sacarose e amido de milho), hidroxipropilmeticelulose (HPMC), etilcelulose (EC), talco, estearato de magnésio (EST). Obs: acetilcitrato de tributila (ACB) é usado como plastificante nesta formulação. Considerando as informações, assinale a afirmativa correta.
- A)A liberação prolongada do CTR é devida ao estearato de magnésio, que é insolúvel em água e dificulta a penetração do pó nos líquidos gastrointestinais, retardando a dissolução do CTR. Os outros excipientes formam uma matriz hidrofílica ao redor do CTR, contribuindo para a liberação prolongada. Esferas de sacarose e amido de milho são usadas como diluentes para o preparo das cápsulas.
Errada, porque o estearato de magnésio é lubrificante e não o responsável pela liberação prolongada, embora a ideia de matriz com polímeros esteja parcialmente confusa com essa função.
- B)A liberação prolongada é obtida com a obtenção de esferas de sacarose e amido, as quais são revestidas com uma solução de CTR. Uma menor porção das esferas não receberá o revestimento (obtendo-se liberação imediata do CTR). Outras porções receberão em separado os revestimentos de HPMC e EC (diferentes solubilidades e espessuras), proporcionando velocidades de liberação diferentes do CTR quando combinadas em uma cápsula. Talco e estearato de magnésio proporcionam melhor fluxo e menor aderência dos grânulos no enchimento das cápsulas, respectivamente.
Certa, pois descreve corretamente núcleos inertes revestidos com o fármaco e com polímeros diferentes, gerando perfis distintos de liberação dentro da cápsula.
- C)Os polímeros formam um fino filme ao redor do CTR, microencapsulando-o por coacervação. A liberação prolongada de CTR é conseguida por diferentes espessuras dos filmes. Esferas de sacarose e amido são usadas para revestir estas microcápsulas para mascarar o sabor ruim. Talco é usado como diluente no enchimento das cápsulas e estearato de magnésio para melhorar o fluxo do pó no enchimento das cápsulas.
Errada, porque não há microencapsulação por coacervação descrita no enunciado e o papel atribuído ao talco e ao estearato de magnésio também está trocado.
- D)Para obter liberação prolongada, esferas são obtidas pela mistura de CTR com HPMC e EC. Estas são revestidas com esferas de sacarose e amido para liberação imediata do CTR. A liberação prolongada é devido às diferentes solubilidades destes polímeros, liberando em tempos diferentes o CTR da matriz hidrofílica.
Errada, porque inverte a lógica da formulação: as esferas não são formadas pela mistura do fármaco com polímeros para depois receber sacarose e amido como revestimento.
- E)A liberação prolongada é obtida primeiramente pela granulação do CTR em solvente não aquoso. Estes grânulos são revestidos com mistura de açúcar e amido, formando as esferas. Estas são então revestidas com camadas alternadas de HPMC e EC. No ambiente do trato gastrintestinal, estas substâncias incham na presença de água, liberando o CRT de modo prolongado, dependendo da ordem de cada camada de revestimento.
Errada, porque mistura etapas e funções que não fazem sentido farmacotécnico, além de atribuir a HPMC e EC um comportamento de inchamento que não corresponde ao principal mecanismo de controle de liberação.
Gabarito: B
A questão está falando de cápsulas duras com liberação prolongada, que muitas vezes não são um “pó único”, mas um conjunto de microgrânulos ou esferas dentro da cápsula. Isso é ótimo porque permite misturar porções com comportamentos diferentes de liberação, combinando efeito imediato e efeito sustentado no mesmo medicamento. É quase como montar um time com jogadores de velocidade diferente. No caso da trimetazidina, as esferas de sacarose e amido funcionam como núcleos inertes, que recebem o fármaco e depois podem ser revestidos com polímeros. A hidroxipropilmetilcelulose (HPMC) tende a formar uma camada hidrofílica, que hidrata e controla a liberação, enquanto a etilcelulose (EC) é um polímero mais insolúvel, usado para retardar ainda mais a saída do fármaco. O acetilcitrato de tributila entra como plastificante, ajudando o filme a ficar flexível e uniforme. O ponto-chave é que a liberação prolongada não vem do estearato de magnésio. Ele é excipiente lubrificante, usado para melhorar o processamento, não para controlar a cinética de liberação. O talco também costuma atuar como antiaderente e auxilia no fluxo. Então, quando a alternativa descreve esferas com diferentes revestimentos e porções sem revestimento, ela está retratando bem uma formulação multiparticulada de liberação modificada. Por isso, o gabarito é a letra B: ela descreve corretamente o uso de núcleos inertes, revestimento com o fármaco, frações com revestimento diferente e uma fração sem revestimento para efeito imediato, o que é compatível com uma cápsula de liberação prolongada. Em farmacotécnica, esse tipo de formulação é clássico para modular dissolução e absorção sem complicar a vida do paciente.