O principal problema que ameaça o sucesso continuado dos fármacos antimicrobianos é o desenvolvimento de organismos resistentes. De fato, o uso excessivo e inapropriado de antibióticos em pacientes que provavelmente não tem infecções bacterianas, a administração por tempo prolongado e o uso de múltiplo fármacos propicia um aumento significativo na prevalência de patógenos com resistência à múltiplos fármacos. Com relação às características de ocorrência de resistência das diferentes classes de antibióticos ou quimioterápicos, assinale a afirmativa correta.
- A)A resistência da vancomicina no tratamento para enterococos é devida uma modificação do sítio intermediário de ligação DAla-D-Ala da unidade de formação do peptidoglicano, que facilita de uma ligação de hidrogênio crítica, com a perda de sua atividade.
Errada, porque a resistência à vancomicina em enterococos ocorre por alteração do alvo de ligação, com troca do terminal D-Ala-D-Ala por D-Ala-D-Lac ou D-Ala-D-Ser, e não por uma formulação como a descrita.
- B)A resistência dos análogos da tetracicilina é devido ao influxo aumentado ou efluxo comprometido por meio de uma bomba proteica transportadora ativa, produção de proteínas que interferem na ligação da tetracilina ao ribossoma e inativação enzimática.
Errada, porque tetraciclinas resistem principalmente por efluxo, proteção ribossomal e, em alguns casos, inativação enzimática, mas a redação está imprecisa e confunde os mecanismos.
- C)A resistência dos aminoglicosídeos está relacionada à produção de uma enzima transferase ou de enzimas que inativam o aminoglicosídeo por adenilação, acetilação e fosforilação, comprometimento de entrada do aminoglicosídeo na célula, podendo genotípico ou fenotípica e a proteína receptora na subunidade ribossomal 30S estar suprimida ou alterada, em função de uma mutação.
Certa, pois os aminoglicosídeos podem ser inativados por enzimas modificadoras, sofrer redução de entrada e apresentar alteração da subunidade 30S, o que caracteriza resistência clássica desse grupo.
- D)A resistência às penicilinas e outros beta-lactâmicos é produzida por ativação do antibiótico pela beta-lactamase, modificação das PBP-alvo (proteína de ligação da penicilina – alvo), penetração reduzida do fármaco até as PBP-alvo (proteína de ligação da penicilina – alvo) e efluxo.
Errada, porque beta-lactâmicos são inativados por beta-lactamases, podem sofrer alteração de PBP e redução de permeabilidade, mas não por ativação do antibiótico nem por efluxo como mecanismo principal.
- E)A resistência à sulfonamidas pode acontecer em consequência de mutações que provocam a produção excessiva de GABA, causam produção de uma enzima sintetizadora de ácido fólico que possui baixa afinidade com sulfonamidas ou comprometem a permeabilidade da sulfonamida.
Errada, porque sulfonamidas atuam na síntese de folato, não em GABA, e a resistência costuma ocorrer por alteração da enzima-alvo ou aumento de produção de PABA, não pelo que foi descrito.
Gabarito: C
A resistência bacteriana aparece quando o microrganismo aprende a driblar o antibiótico, seja destruindo o fármaco, mudando o alvo, bloqueando a entrada ou expulsando a droga para fora. Em prova, a banca costuma misturar esses mecanismos entre classes diferentes, então o segredo é reconhecer o “padrão” de cada grupo. No caso dos aminoglicosídeos, a resistência mais clássica envolve enzimas que inativam o antibiótico, como as que promovem acetilação, adenilação e fosforilação. Além disso, pode haver redução da entrada do fármaco na bactéria e alteração do sítio-alvo na subunidade 30S ribossomal, o que impede a ligação adequada e derruba o efeito bactericida. Por isso, a alternativa C está correta: ela descreve exatamente os mecanismos conhecidos de resistência aos aminoglicosídeos. Esse é o tipo de conteúdo muito cobrado em farmacologia: mecanismo de ação de um lado, mecanismo de resistência do outro, quase como uma disputa de braço entre fármaco e bactéria. As demais alternativas misturam conceitos. Vancomicina, beta-lactâmicos, sulfonamidas e tetraciclinas têm mecanismos de resistência próprios, mas os termos usados em A, D e E estão trocados ou biologicamente incorretos. Em farmacologia, um detalhe fora do lugar costuma derrubar a questão inteira.