Éramos onze gatos pingados contra milhões enfurecidos. Amigos, todo o Chile se levantou contra nós. A imprensa, o rádio, a TV, o homem de rua, as crianças — quiseram triturar emocionalmente a ‘seleção de ouro’. Nunca se fez um massacre psicológico tão feroz contra alguém. O futebol passou para um plano secundário. O objetivo único foi, repito, a liquidação psicológica dos craques brasileiros (...) O Brasil estava só, mas tinha Garrincha. (...) Quando ele enfiou um gol e depois outro, isso aqui foi, como diria um orador de gafieira, foi uma pátria constelada de garrinchas. RODRIGUES, Nelson. À sombra das chuteiras imortais. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. O trecho do comentário de Nelson Rodrigues refere-se ao jogo da semifinal da Copa do Mundo de 1962, entre Chile e Brasil. A tese exposta pelo autor é de que
- A)a individualidade excepcional do jogador concede a ele a possibilidade de separação em relação à coletividade.
Errada, porque o texto não defende o isolamento do atleta, mas sim o efeito coletivo que sua atuação produz sobre o país.
- B)a maneira como o esporte intensifica rivalidades regionais pode até mesmo gerar problemas de ordem diplomática.
Errada, porque não há discussão sobre rivalidades regionais ou problemas diplomáticos, e sim sobre o impacto simbólico da atuação esportiva.
- C)a mídia de massa é responsável pela rivalidade na comunidade esportiva, afetando torcidas e jogadores.
Errada, porque a mídia aparece como ambiente hostil no relato, mas não como a tese central do autor.
- D)a pressão psicológica sofrida por jogadores se deve às hostilidades externas e prejudicam o esporte.
Errada, porque a pressão psicológica é mencionada como contexto, porém a conclusão do texto está na superação que gera pertencimento, não no prejuízo ao esporte.
- E)a demonstração de performance excepcional de um jogador de futebol contribui para o pertencimento social.
Certa, porque o desempenho excepcional de Garrincha é apresentado como fator de união simbólica e pertencimento social para os brasileiros.
Gabarito: E
O texto de Nelson Rodrigues não está dizendo apenas que Garrincha jogou bem. A ideia central é mais forte: em um momento de enorme pressão coletiva, a atuação excepcional do jogador virou símbolo de união, orgulho e identificação nacional. Em outras palavras, a performance dele ajudou a transformar uma situação de hostilidade em sentimento de pertencimento social. Isso conversa bem com a Educação Física quando ela é vista nas suas bases sócio-históricas: o esporte não é só técnica, regra e placar. Ele também produz sentidos sociais, cria ídolos, mobiliza emoções e ajuda a construir identidades coletivas. Um craque, nesse contexto, não representa apenas a si mesmo, mas também um grupo, uma nação, uma torcida inteira. É o famoso efeito 'o jogador virou ideia'. Por isso, o gabarito é a letra E. O trecho mostra que a atuação extraordinária de Garrincha fez o Brasil se reconhecer naquele momento, quase como se a vitória fosse compartilhada por todos. A expressão final do autor é bem reveladora: a exibição do atleta reforça o pertencimento social, e não uma separação individualista. As demais alternativas tentam puxar a interpretação para mídia, diplomacia, rivalidade ou estresse psicológico, mas o foco do texto está na dimensão simbólica e coletiva do esporte. Aqui, o gol não é só gol: é catarse social com chuteira.