Leia o trecho a seguir a respeito da insurgência ocorrida no início do século XX durante a campanha de vacinação contra a varíola. A Revolta da Vacina permanece como exemplo quase único na história do país de movimento popular de êxito baseado na defesa do direito dos cidadãos de não serem arbitrariamente tratados pelo governo. Mesmo que a vitória não tenha sido traduzida em mudanças políticas imediatas além da interrupção da vacinação, ela certamente deixou entre os que dela participaram um sentimento profundo de orgulho e de autoestima, passo importante na formação da cidadania. CARVALHO, José Murilo de. Os bestializados. São Paulo: Companhia das Letras, 2019. Segundo o autor, essa situação é exemplar da tensão entre
- A)ciência médica e ignorância popular diante das políticas de saúde.
Errada, porque a questão não opõe ciência médica e ignorância popular, mas sim ação estatal coercitiva e direito individual.
- B)práticas higienistas e liberdade individual na saúde pública.
Certa, pois a Revolta da Vacina expressa a tensão entre políticas higienistas de saúde pública e a liberdade individual diante da intervenção do Estado.
- C)passividade das camadas populares e medidas coercitivas do governo.
Errada, porque a revolta mostra reação ativa da população contra o governo, e não passividade popular.
- D)campanhas educativas e desinformação entre a população.
Errada, porque o foco não é a relação entre campanhas educativas e desinformação, mas a imposição autoritária da vacinação.
- E)resistência das elites à vacinação e rápida adesão das classes populares.
Errada, porque as elites não são o centro do conflito descrito, nem houve rápida adesão popular à vacinação.
Gabarito: B
A Revolta da Vacina, em 1904, no Rio de Janeiro, mostra um ponto clássico da história da saúde pública: quando o Estado entra com força para controlar doenças, mas faz isso de modo autoritário, a população reage. Naquele contexto, as reformas urbanas e sanitárias tinham a ideia de "limpar" a cidade, combater a varíola e outras epidemias, mas vieram acompanhadas de remoções, inspeções e vacinação obrigatória imposta de cima para baixo. O trecho de José Murilo de Carvalho destaca exatamente isso: não era uma briga contra a vacina em si, mas contra a forma arbitrária como o governo tratou os cidadãos. Em outras palavras, a tensão era entre o projeto higienista, que buscava ordenar e proteger a saúde coletiva, e a liberdade individual, especialmente o direito de não ser submetido a intervenções sem consentimento adequado. Isso é muito importante para entender Saúde Pública e SUS hoje. A atuação estatal em vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental precisa equilibrar proteção da coletividade com respeito a direitos fundamentais, legalidade, proporcionalidade e informação clara. Ou seja: saúde pública não combina com autoritarismo de jaleco. Por isso, o gabarito é a letra B. O enunciado descreve justamente o conflito entre medidas sanitárias impostas pelo poder público e a reação popular em defesa da autonomia do cidadão diante da vacinação compulsória.