“Em sua busca pela pedra filosofal, os alquimistas do século XIV tornaram-se os primeiros a compreender a natureza dos ácidos. O único ácido conhecido pelos antigos fora o ácido acético fraco do vinagre (...) Pouco depois de 1300, o Falso Geber descobriu o vitríolo. Ali estava um líquido que parecia dissolver, corroer quase todas as coisas e reagir com elas!” “Além do ácido sulfúrico, o Falso Geber descreveu também como fazer ácido nítrico forte.” STRATHERN, Paul. O Sonho de Mendeleiev - A verdadeira história da Química. 2002. Zahar. Os métodos usados por alquimistas, ainda que rudimentares, permitiram o isolamento de ácidos acético, lático, sulfúrico e nítrico. O último, conhecido na época como água forte, se destacava pela “assombrosa capacidade de dissolver quase tudo, exceto ouro”. [Dados: Potenciais de Redução Padrão: 2H+ + 2e- → H2 E0 = 0,00 V NO3- + 4H+ + 3e- → NO + 2H2O E0 = 0,96 V NO3- + 2H+ + e- → NO2 + H2O E0 = 0,80 V Cu2+ + 2e → Cu E0 = 0,34 V] Tomando o cobre como exemplo, a capacidade do ácido nítrico dissolver esse metal deve ser, à luz do conhecimento atual, justificada pela
- A)elevada força ácida, sendo o ácido nítrico capaz de gerar íons H+ em soluções aquosas.
Errada, porque a simples força ácida não explica a dissolução do cobre, já que o ponto-chave aqui é a ação oxidante do ácido nítrico.
- B)possibilidade de promover a oxidação de qualquer metal, com redução de íons hidrônio à H2.
Errada, pois nem todo metal é oxidado por qualquer ácido, e a redução de H3O+ a H2 não é o mecanismo principal nesse caso.
- C)possibilidade de promover a redução do íon nitrato em meio ácido a gases como NO ou NO2, oxidando o cobre.
Certa, pois o nitrato é reduzido em meio ácido a NO ou NO2 e, com isso, oxida o cobre a Cu2+.
- D)possibilidade de corroer o cobre com concomitante oxidação do ácido nítrico ao ácido nitroso.
Errada, porque não há formação de ácido nitroso como produto típico da reação do cobre com ácido nítrico nas condições usuais.
- E)possibilidade de agir como redutor frente ao cobre, formando sais de cobre.
Errada, já que o ácido nítrico não atua como redutor frente ao cobre; ele é o oxidante da reação.
Gabarito: C
O ponto central aqui não é só dizer que o ácido nítrico é “forte”, mas entender o que ele faz na prática: ele funciona como agente oxidante. Em química redox, não basta olhar se a substância libera H+; o diferencial, neste caso, é que o cobre sofre oxidação enquanto o nitrato é reduzido. Ou seja, o ácido nítrico não “some” apenas como ácido, ele entra na jogada como oxidante e aceita elétrons. Para o cobre, isso é decisivo porque ele não reage com ácidos não oxidantes comuns apenas por liberar hidrogênio. Já com o ácido nítrico, o íon NO3- em meio ácido pode ser reduzido a gases como NO ou NO2, enquanto o Cu é oxidado a Cu2+. É por isso que o metal se dissolve: houve transferência de elétrons, não uma simples corrosão ácida genérica. Os potenciais de redução fornecidos ajudam a justificar isso. Como o potencial de redução do nitrato em meio ácido é maior do que o do par Cu2+/Cu, a reação global é espontânea. Em linguagem de prova: o ácido nítrico dissolve o cobre porque atua como oxidante e é reduzido, enquanto o cobre é oxidado. Então, o gabarito C está correto porque descreve exatamente esse processo: redução do íon nitrato em meio ácido a NO ou NO2, com oxidação do cobre. É o clássico “ácido que não se comporta só como ácido”, muito querido por bancas que gostam de misturar função inorgânica com redox.