Para estabelecer cotidianamente que fatos se tornarão ou não notícias, os jornalistas seguem critérios próprios, muitas vezes, por eles considerados óbvios e instintivos. Para sistematizar esses critérios, o teórico Mauro Wolf busca organizar os valores-notícia em cinco categorias, a saber: 1. Substantivas; 2. Relativas ao produto; 3. Relativas ao meio de informação; 4. Relativas ao público e 5. Relativas à concorrência. Nesse contexto, avalie as duas situações a seguir: I. Um avião caiu nas proximidades do aeroporto de Congonhas, em São Paulo, matando toda a tripulação e 80 passageiros, dentre eles os cinco jovens integrantes de uma popular banda de rock brasileira. II. Um repórter de um jornal de abrangência nacional teve acesso exclusivo a documentos que comprovam o envolvimento de dois vereadores de um município do interior de São Paulo em um caso de desvio de pequenas quantias da verba pública. Ele conseguiu antes dos demais jornalistas uma entrevista exclusiva com o presidente da Câmara. Os dois casos têm probabilidade de se tornarem notícias com base respectivamente nas categorias
- A)relativas ao público e relativas ao produto.
Errada, porque o primeiro caso não se define principalmente pelo público, e o segundo não gira em torno do produto jornalístico em si.
- B)relativas à concorrência e relativas ao meio.
Errada, porque o primeiro não é caso de concorrência e o segundo não é classificado pelo meio de informação.
- C)substantivas e relativas à concorrência.
Certa, pois o acidente aéreo tem forte valor substantivo e a exclusividade do repórter evidencia o valor-notícia ligado à concorrência.
- D)relativas ao público e substantivas.
Errada, porque o primeiro fato não é explicado pela categoria relativa ao público, e o segundo não é substantivo na lógica pedida pela questão.
- E)relativas ao produto e relativas ao meio.
Errada, porque o primeiro caso não se enquadra como valor relativo ao produto, e o segundo não depende do meio de informação.
Gabarito: C
Mauro Wolf organiza os valores-notícia em categorias para mostrar que o jornalismo não escolhe fatos ao acaso. Em geral, o que vira notícia costuma ter algum peso substantivo do acontecimento, algum interesse do público, facilidade de apuração, encaixe no meio ou vantagem frente à concorrência. Na prática, a banca gosta de cobrar o seguinte: quando o fato chama atenção pelo próprio conteúdo, pela gravidade, impacto, morte, notoriedade ou dimensão do acontecimento, estamos diante de valores-notícia substantivos. É o caso do avião que cai, mata muitas pessoas e ainda envolve integrantes conhecidos de uma banda. O fato é forte por si mesmo, sem depender de disputa entre veículos. Já quando o destaque está no furo, na exclusividade, em sair antes dos concorrentes ou em ter acesso privilegiado a uma informação, o foco é a categoria relativa à concorrência. No segundo caso, o repórter conseguiu documentos exclusivos e ainda uma entrevista antes dos demais, então o elemento determinante é justamente a vantagem competitiva diante dos outros jornalistas. Por isso, o gabarito é C: o primeiro caso se encaixa em valores substantivos e o segundo em valores relativos à concorrência. É a leitura clássica da teoria de Mauro Wolf, muito usada em prova para separar o que faz o fato ser notícia do que faz o veículo querer publicar primeiro.