Leia o último parágrafo do texto publicado em 2020 na versão online do El País e intitulado: Aborto, um sentimento de alívio, Por Débora Diniz e Giselle Carino Por que falamos em alegria como sentimento para o aborto voluntário? Porque só uma mulher convicta de sua própria existência e projeto de vida se move contra a cadeia e o inferno para abortar em condições clandestinas na América Latina. O aborto é uma necessidade de vida para as mulheres, por isso quando uma mulher aborta ela se distancia das normas de gênero como um destino para desafiá-la em uma de suas táticas de controle do corpo das mulheres – a reprodução biológica –. Arriscamos dizer que as mulheres que abortam não são levianas, tampouco alienadas das normas sociais de gênero que insistem em colonizar nossos sentimentos com culpa, vergonha ou arrependimento. Ao contrário: as mulheres que abortam vivem a experiência singular de estranhar o patriarcado, e deslocam a maternidade do campo do destino da natureza para o da norma social. Por isso, imaginamos essas mulheres com a alegria da esperança e não sendo o aborto um trauma que seja também um alívio. (Debora Diniz é brasileira, antropóloga, pesquisadora da Universidade de Brown. Giselle Carino é argentina, cientista política, diretora da IPPF/WHR.) Esse trecho faz parte de um(a)
- A)notícia.
Errada, porque notícia prioriza informação objetiva e factual, sem defesa explícita de tese pessoal.
- B)artigo.
Certa, porque o trecho apresenta opinião, argumentação e posição autoral claramente assumida pelas autoras.
- C)reportagem.
Errada, porque reportagem aprofunda fatos e contextos, mas aqui o foco é a argumentação opinativa, não a apuração informativa.
- D)crônica.
Errada, porque crônica costuma ter tom mais literário, cotidiano ou reflexivo, e não a estrutura argumentativa direta do trecho.
- E)editorial.
Errada, porque editorial expressa a posição institucional do veículo, enquanto aqui a voz é assinada e pessoal.
Gabarito: B
A questão pede a identificação do gênero jornalístico do trecho. Aqui, o texto não está apenas informando um fato, nem narrando um acontecimento com foco objetivo. Ele defende uma tese, interpreta a realidade e tenta convencer o leitor de uma visão sobre o aborto, com linguagem argumentativa e posicionamento explícito das autoras. Isso é a cara de um artigo de opinião, ou simplesmente artigo, muito comum na imprensa quando o autor expõe ideias e sustenta um ponto de vista. Perceba os sinais: há subjetividade, defesa de uma posição, uso de argumentos e conclusão persuasiva. Expressões como "por isso", "arriscamos dizer" e "imaginamos" mostram que o texto não busca neutralidade absoluta. Em jornalismo, esse tipo de texto difere da notícia, que é mais factual, e da reportagem, que aprofunda um fato com apuração, mas sem necessariamente assumir tom opinativo tão direto. Na prática, quando a banca FGV mostra um trecho com autor identificado e voz assumidamente interpretativa, a pista costuma apontar para artigo. O texto ainda pode estar publicado em veículo jornalístico, mas o gênero depende da função comunicativa: aqui, a função é opinar e argumentar. Por isso, o gabarito é B. Não há o compromisso central com a objetividade da notícia, nem a estrutura típica de reportagem, nem o tom literário da crônica, nem a institucionalidade impessoal do editorial. O trecho é um texto assinado, com opinião individual bem marcada.