A crônica é um gênero de redação jornalística que teve origem nos folhetins franceses do século XIX. No Brasil, ela sofreu adaptações linguísticas e temáticas, como se pode observar na citação a seguir: “a crônica assumiu entre nós caráter sui generis. Em outros termos, estamos criando uma nova forma de crônica (ou dando erradamente esse rótulo a um gênero novo) que nunca medrou na França. Crônica é para nós hoje, na maioria dos casos, prosa poemática, humor lírico, fantasia, etc., afastando-se do sentido de história, de documentário que lhe emprestam os franceses” (MOISÉS, M. A criação literária. São Paulo: Editora Cultrix, 1982. Pg. 246). Sobre a crônica esportiva nos jornais impressos, é correto afirmar que:
- A)Mário Filho, Nelson Rodrigues, Armando Nogueira, entre outros, são exemplos de escritores, e não de cronistas, pois a Academia Brasileira de Letras não considera o gênero como literatura;
Errada: cronistas como Mário Filho, Nelson Rodrigues e Armando Nogueira são também escritores e a crônica é reconhecida como forma literária-jornalística.
- B)o autor utiliza a imprecisão como princípio norteador na redação, pois os dados estatísticos de uma partida não são considerados na produção do texto;
Errada: a crônica esportiva não ignora dados da partida; ela pode usar estatísticas, embora não fique restrita a elas.
- C)o gênero não pode apresentar quaisquer tendências a “ficcionar” os fatos, pois isso contraria os cânones do jornalismo no Brasil;
Errada: a crônica pode sim ter traços de ficção, lirismo e subjetividade, sem deixar de ser jornalística.
- D)as experiências pessoais do autor não influenciam na escrita e no estilo do texto, pois a opinião é tolhida no processo de edição;
Errada: a experiência pessoal e a opinião do autor influenciam fortemente o estilo e a escrita da crônica.
- E)o autor pode abordar diversos assuntos, pois goza de liberdade de criação, e o texto final se situa na intersecção entre Jornalismo e Literatura.
Certa: a crônica esportiva admite liberdade de criação e transita entre Jornalismo e Literatura.
Gabarito: E
A crônica esportiva é aquele espaço em que o jornalismo deixa de ser só súmula e vira leitura de jogo, de personagem e de atmosfera. Ela nasce ligada ao fato, mas não fica presa a ele como um relatório frio: o cronista pode comentar, ironizar, poetizar, exagerar um pouco e até transformar um lance em cena literária. É por isso que, no Brasil, a crônica ganhou um jeito próprio, bem diferente do modelo mais documental associado aos folhetins franceses. No caso da crônica esportiva, o texto costuma circular entre informação, opinião e estilo. O autor pode falar da partida, do estádio, da torcida, do clima, de uma memória pessoal ou de uma metáfora que faça sentido para aquele jogo. Não é um texto engessado, e justamente essa liberdade é uma marca central do gênero. Em outras palavras: a crônica esportiva não precisa se limitar ao placar para existir, porque o valor dela muitas vezes está na forma de narrar o acontecimento. Por isso, a alternativa correta é a letra E. Ela descreve bem essa mistura de Jornalismo e Literatura, com liberdade de criação e abertura para vários assuntos. Essa característica é coerente com a tradição brasileira da crônica, descrita por autores como Marques de Melo e Nilson Lage como um gênero híbrido, situado entre o relato jornalístico e a expressão literária. As demais alternativas tentam empurrar a crônica para um jornalismo seco, sem opinião, sem subjetividade e sem imaginação, mas aí ela perde sua essência. Na prática, a crônica esportiva vive justamente dessa zona de fronteira: informa, interpreta e, de quebra, dá sabor ao noticiário.