O mercúrio (Hg) e sua forma mais biodisponível, o metilmercúrio (MeHg), são neurotoxinas que afetam o desenvolvimento e a função do sistema nervoso central. Para investigar se a biota de poças temporárias de água pode atuar como vetor de MeHg para o ecossistema terrestre, pesquisadores dosaram os níveis da substância presentes em poças temporárias e em populações de anfíbios presentes nessas poças. Foram coletadas amostras de ovos e de larvas de uma espécie de rã e de uma espécie de salamandra, bem como amostras de sangue e de tecidos de adultos de ambas as espécies. Os resultados mostraram que os níveis de mercúrio nos ovos dos anfíbios eram relativamente baixos – semelhantes aos da água das poças. O gráfico a seguir mostra os resultados das análises biológicas. (Fonte: https://phys.org/news/2019-07-bioaccumulationmethylmercury-wood-frogs-salamanders.html) A análise do gráfico permite observar a ocorrência de:
- A)biomagnificação; o poluente se acumula nos primeiros níveis tróficos, mas a biotransformação ocasiona sua redução ao longo da cadeia alimentar;
Errada, porque biomagnificação não reduz a concentração ao longo da cadeia alimentar, mas aumenta nos níveis tróficos superiores.
- B)diluição trófica; a cada transferência de biomassa ao longo da cadeia alimentar, a concentração do poluente diminui, devido à biotransformação e excreção pelos organismos;
Errada, porque a descrição corresponde a uma diminuição progressiva da concentração, e isso não caracteriza o padrão observado para o metilmercúrio.
- C)bioacumulação de metilmercúrio, principalmente pelas larvas de salamandras; caso elas sejam ingeridas por outros organismos, poderá ocorrer o fenômeno da biomagnificação;
Certa, pois descreve a bioacumulação de metilmercúrio nas larvas e prevê biomagnificação se houver transferência para predadores.
- D)biotransformação; o metilmercúrio, altamente solúvel, é absorvido em maior quantidade pelas larvas, ao passo que os adultos, menos dependentes do ambiente aquático, realizam menor absorção;
Errada, porque biotransformação não é o fenômeno mostrado no gráfico, e o enunciado trata de acúmulo do contaminante, não de simples diferença de absorção entre fases.
- E)magnificação trófica; o metilmercúrio ingressa na cadeia trófica por absorção dos organismos planctônicos, mas tem sua concentração reduzida nos demais níveis em função da diminuição da biomassa dos consumidores.
Errada, porque magnificação trófica implica aumento, e não redução, da concentração do poluente ao longo da cadeia alimentar.
Gabarito: C
Aqui a ideia central é diferenciar três fenômenos parecidos, mas não iguais: bioacumulação, biomagnificação e diluição trófica. Na bioacumulação, a substância tóxica vai se acumulando no próprio organismo ao longo do tempo, porque a entrada supera a eliminação. Já a biomagnificação acontece quando essa substância aumenta de concentração ao longo da cadeia alimentar, passando de um nível trófico para outro. A diluição trófica seria o contrário: a concentração cairia nos níveis mais altos, o que não é o caso do mercúrio neste contexto. No enunciado, os ovos tinham níveis baixos, próximos aos da água, o que mostra que a contaminação começa no ambiente. Depois, o gráfico indica aumento do metilmercúrio nos organismos à medida que eles crescem e se alimentam, especialmente nas larvas de salamandras. Isso é um sinal clássico de bioacumulação, porque o organismo vai incorporando o contaminante ao longo do tempo e ele não é eliminado com facilidade. O ponto-chave é que, se essas larvas forem consumidas por outros animais, o metilmercúrio pode ser transferido para o próximo nível trófico e aí sim ocorrer biomagnificação. Como o MeHg é lipossolúvel e muito persistente, ele tende a permanecer nos tecidos e subir na cadeia alimentar, o que o torna tão perigoso para ecossistemas e para a saúde humana. Por isso, a alternativa C está correta: ela reconhece a bioacumulação nas larvas de salamandra e ainda aponta a possibilidade de biomagnificação caso haja predação. É exatamente o tipo de raciocínio ecológico que a FGV gosta: observar o dado, identificar o processo e não cair na armadilha de trocar um termo pelo outro.