A socióloga McKenzie Wark aponta o surgimento e a consolidação de uma nova classe social, a “classe vetorial”, composta por grupos de indivíduos e empresas que controlam o “vetor” da extração de dados como a Amazon, por exemplo. Jeff Bezos (fundador e CEO da Amazon) e sua equipe controlam não apenas indústrias, armazéns, logística, mas uma plataforma que domina o mercado inteiro e se manifesta não apenas num site na internet, mas em dezenas de aplicações – Alexa, Kindle, Prime Video, Amazon Music, Echo, Fire TV, AWS etc. Cada interação de um usuário com qualquer de seus produtos e portas de entrada, ao longo de todo o vetor, pressupõe inteligência de dados para a Amazon. De todos os usuários, mesmo aqueles que não compraram nada, extrai-se mais-valia. Cada clique significa trabalho não-remunerado. Adaptado de https://revista.internetlab.org.br/devastacao/. Com base no texto, pode-se afirmar que o poder da nova classe vetorial reside na
- A)superação do conceito de propriedade intelectual, o que permite a apropriação das criações coletivas e sua revenda na economia digital.
Errada, porque o texto não fala em superação da propriedade intelectual, e sim em controle de dados e plataformas como fonte de lucro.
- B)coordenação e logística dos processos de produção e circulação de informações e dados, transformados em commodity.
Certa, pois descreve exatamente o domínio da circulação de informações e dados, que são explorados economicamente como mercadoria.
- C)criação de aplicativos para reduzir os custos das cadeias produtivas da indústria cultural, facilitando o acesso à cibercultura.
Errada, porque a questão não trata de indústria cultural nem de redução de custos por aplicativos, mas de extração de valor dos dados.
- D)desmonetarização da produção cognitiva, livre de patentes, reconhecendo a impossibilidade de controlar o fluxo de informações em plataformas digitais.
Errada, pois o texto aponta justamente o contrário: há controle e monetização do fluxo de informações, não sua desmonetização.
- E)financiamento do conhecimento científico e das pesquisas avançadas realizadas de modo interativo entre universidades públicas e empresas.
Errada, porque não se discute financiamento da ciência nem cooperação universidade-empresa, e sim a captura de valor em plataformas digitais.
Gabarito: B
A ideia central do texto é que o poder econômico, hoje, não depende só de fabricar coisas, mas de controlar os fluxos de dados, as plataformas e os caminhos por onde a informação circula. É como se a riqueza estivesse menos na prateleira e mais no trajeto até a prateleira. Quem domina esse percurso consegue observar, direcionar e extrair valor de cada clique, busca e interação do usuário. No texto, McKenzie Wark chama isso de “classe vetorial” porque o vetor é justamente a via de circulação dos dados. Empresas como a Amazon não controlam apenas um site, mas um ecossistema inteiro de aplicativos, serviços e dispositivos. Isso permite coordenar logística, consumo, comportamento e até o tempo de atenção das pessoas. O resultado é a transformação de dados em mercadoria, ou commodity, isto é, algo explorável economicamente em larga escala. Por isso o gabarito é a letra B. Ela traduz bem a lógica descrita no enunciado: o poder está na coordenação e na logística dos processos de produção e circulação de informações e dados. Em linguagem mais simples, quem controla a infraestrutura digital controla o mercado e consegue converter atividade cotidiana em valor econômico. Esse tema aparece muito em discussões sobre capitalismo de plataforma e vigilância digital, em diálogo com autores como Shoshana Zuboff e com a própria crítica de Wark. A sacada da questão é perceber que não se trata apenas de tecnologia, mas de poder sobre a circulação da informação e sobre a captura do valor gerado pelos usuários.