Hertzberger, na obra “Lições de Arquitetura”, descreve a rua como “um lugar em que o contato social entre os moradores pode ser estabelecido; como uma sala de estar comunitária”. A potência dessa ideia como referência para o planejamento pode ser facilmente percebida, mas o autor também alerta para o fato de que esse conceito vem sendo desvalorizado ao longo do tempo. Segundo Hertzberger, são fatores que contribuem para essa perda de valor, exceto:
- A)O aumento do tráfego motorizado e a prioridade que recebe.
Esta correta como fator de perda, porque o predomino do trafego motorizado reduz a seguranca, o uso pedonal e a permanencia das pessoas na rua.
- B)A organização sem critérios de áreas de acesso às moradias, em particular as portas da frente, por causa de vias indiretas e impessoais de acesso, que diminuem o contato com o nível da rua.
Esta correta como fator de perda, pois acessos indiretos, impessoais e mal orientados enfraquecem a relacao entre moradia e nivel da rua.
- C)A anulação da rua como espaço comunitário por causa do assentamento dos blocos.
Esta correta como fator de perda, porque o assentamento de blocos pode anular a rua como espaco comunitario e quebrar a continuidade do convivio.
- D)Densidades muito altas de moradias, enquanto o número de moradores por unidades também aumenta acentuadamente.
Esta errada, pois a alta densidade de moradias nao e, por si so, um fator de desvalorizacao da rua; em geral, pode ate fortalecer a vida urbana.
- E)O aumento das condições econômicas das pessoas, que faz com que elas necessitem menos dos vizinhos e façam menos coisas juntas.
Esta correta como fator de perda, porque melhores condicoes economicas podem diminuir a dependencia dos vizinhos e a realizacao de atividades em comum.
Gabarito: D
Para Hertzberger, a rua nao e so um caminho para carros: ela pode funcionar como uma extensao da casa, um espaco de encontro, vigilancia informal e convivio cotidiano. Quando isso acontece, a rua vira uma especie de sala de estar coletiva, onde o contato entre vizinhos acontece quase sem perceber. A ideia e simples: quanto mais a rua favorece permanencia, acesso direto e proximidade entre moradores, mais ela cumpre papel social. O autor aponta que essa funcao foi enfraquecida por algumas mudancas urbanas bem conhecidas: o aumento do trafego motorizado, acessos mais impessoais, blocos que anulam a rua tradicional e ate o aumento do conforto economico, que reduz a dependencia do vizinho. Tudo isso afasta as pessoas do nivel da rua e enfraquece a vida comunitaria. O item D nao entra nessa lista de fatores de perda de valor. Pelo contrario, densidades mais altas de moradias, em geral, tendem a aumentar a chance de encontros, usos compartilhados e vitalidade urbana, desde que o desenho urbano nao destrua a relacao com a rua. Ou seja: o problema nao esta na densidade em si, mas na forma como a cidade organiza esses espacos. Por isso, o gabarito e a alternativa D. A banca cobra justamente essa leitura: nao confundir adensamento com esvaziamento social. A rua perde valor quando e esvaziada de contato humano, nao quando ha maior concentracao de moradores bem integrada ao tecido urbano.