No momento em que escrevo estas linhas, o Brasil parece que começa a deixar para trás o pior da pandemia: bares e restaurantes já não têm mais limitações em seu funcionamento, “você já se vacinou?” é uma frase que usamos na abertura de nossas conversas, as reuniões presenciais são cada vez menos estranhas e o trânsito paralisa o fluxo novamente nas grandes cidades. Ainda que nosso modo de vida pareça voltar ao ponto anterior ao pequeno ensaio de apocalipse que vivemos recentemente, algo dá a impressão de estar deslocado. O mundo não parece estar voltando ao “normal”. Se antes da pandemia dizíamos que de perto ninguém é normal, hoje definitivamente dá pra dizer que de longe já dá pra sacar que estamos irremediavelmente anormais. (GUERRA, Facundo. Nunca fomos normais. Pequenas empresas & grandes negócios. São Paulo: Ano 31. Ed. 390, set. 2021. Editora Globo. p. 24-25. Fragmento adaptado.) As aspas utilizadas no termo “normal” indicam que
- A)o jornalista está colocando o sentido do termo em xeque.
Certa, porque as aspas indicam distanciamento crítico e colocam em dúvida o sentido usual de “normal”.
- B)se trata de uma citação de outro texto.
Errada, porque não há indicação de citação literal de outro texto, mas sim de uso expressivo da palavra no próprio enunciado.
- C)após a pandemia a palavra caiu em desuso, tornando-se um arcaísmo.
Errada, porque a palavra não está em desuso nem virou arcaísmo; o efeito é semântico, não histórico.
- D)a palavra merece destaque no texto.
Errada, porque o destaque gráfico sozinho não explica o uso das aspas, já que aqui elas fazem mais do que apenas chamar atenção.
Gabarito: A
As aspas podem ter várias funções no texto, e uma das mais cobradas em prova é o uso para marcar distanciamento, ironia ou questionamento de uma palavra. Quando o autor coloca um termo entre aspas, ele pode estar dizendo, na prática: “olha, não tome isso no sentido comum, porque aqui há um uso especial”. Neste fragmento, a palavra “normal” aparece entre aspas porque o autor problematiza a ideia de normalidade. Ele não está apenas repetindo a palavra de forma neutra; está sugerindo que esse “normal” é relativo, questionável, talvez até ilusório depois da experiência da pandemia. Ou seja, as aspas colocam o sentido do termo em xeque. Isso é bem diferente de citação direta de outro texto, que normalmente viria com indicação de autoria, contexto e reprodução literal de um trecho alheio. Aqui não há isso: o autor está usando a palavra para produzir efeito de sentido no próprio texto. Então, o gabarito A está correto porque as aspas servem para sinalizar que o termo “normal” não deve ser lido de forma literal e pacífica. Em linguagem de prova: as aspas relativizam, ironizam ou questionam o termo destacado.