Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis Com cabelos mui pretos pelas espáduas E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas Que de nós as muito bem olharmos Não tínhamos nenhuma vergonha ANDRADE, O. Poesias completas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971. p. 80. Nesses famosos versos de Oswald de Andrade, vê-se uma releitura de trecho igualmente famoso da carta de Pero Vaz de Caminha. Com relação aos substantivos “vergonha” e “vergonhas”, o autor adquire mais expressividade quando
- A)emprega vocábulos parecidos na forma, mas de sentidos contrários.
Errada, porque não há oposição de sentido entre palavras parecidas, mas uma retomada vocabular com efeito expressivo.
- B)serve-se do procedimento textual da sinonímia.
Errada, porque sinonímia é relação de sentido entre palavras diferentes, e aqui o foco está na repetição/reaproveitamento do mesmo vocábulo.
- C)recorre à reiteração de vocábulos homônimos.
Certa, porque o autor retoma o mesmo vocábulo em contexto de sentido diverso, explorando a homonímia/reiteração para aumentar a expressividade.
- D)explora o uso de palavras parônimas.
Errada, porque parônimos são palavras parecidas na forma e diferentes no sentido, como descrito em outras questões, mas não é esse o recurso central do trecho.
Gabarito: C
A graça do trecho está no jogo de palavras. Em texto literário, repetir um vocábulo pode aumentar a expressividade, principalmente quando ele aparece com sentidos diferentes ou em valores que se aproximam pelo contexto. Aqui, "vergonha" e "vergonhas" não estão ali por acaso: Oswald retoma o termo de modo irônico, fazendo eco à passagem de Caminha e criando um efeito de sentido mais vivo e malicioso. Esse recurso é entendido, na leitura da questão, como reiteração de vocábulos homônimos: a mesma forma ou formas muito próximas reaparecem no texto, mas com valor expressivo renovado. Em gramática e semântica, a homonímia ocorre quando há identidade de forma e diferença de sentido, total ou parcial, dependendo da classificação adotada. Por isso o gabarito C faz sentido. O autor não está só repetindo palavra por repetir; ele usa a repetição para produzir humor, ironia e ambiguidade. É exatamente esse tipo de manobra que dá mais sabor ao texto literário, especialmente em releituras paródicas. Em prova, sempre desconfie quando a banca tenta transformar repetição em sinônimo, antônimo ou parônimo sem olhar o efeito de sentido. Aqui, o ponto central é a retomada vocabular com forte carga expressiva e semântica, não mera ornamentação.