Observe o seguinte texto: “Senhor juiz, eu sei que o senhor tem bom coração. Está certo que meu filho cometeu um crime, mas ele deve ser absolvido. Esse menino está enfrentando problemas terríveis: o pai adoeceu, o irmão está desaparecido, a irmã fugiu de casa, uma tragédia. Se ele for condenado, ficará traumatizado para o resto da vida, senhor juiz”. O problema estrutural desse texto é que
- A)os argumentos não apoiam a conclusão.
Certa, porque os fatos narrados não sustentam logicamente a conclusão de que o réu deve ser absolvido.
- B)a analogia realizada não é adequada.
Errada, porque não há comparação entre casos ou situações, mas sim um apelo emocional.
- C)o apelo ao sentimento do juiz é adequado.
Errada, porque o apelo ao sentimento do juiz existe, mas isso não torna o raciocínio adequado como argumento.
- D)os argumentos dão autoridade ao pedido.
Errada, porque os argumentos não conferem autoridade ao pedido; eles apenas tentam sensibilizar.
- E)a argumentação produz provas falsas.
Errada, porque o problema não é a fabricação de provas falsas, e sim a falta de relação lógica entre fatos e conclusão.
Gabarito: A
Aqui o texto tenta convencer o juiz, mas comete um erro clássico de estrutura argumentativa: ele não prova que o réu merece absolvição; apenas lista fatos tristes da vida familiar dele. Em outras palavras, há emoção, mas falta ligação lógica entre as premissas e a conclusão. O argumento basicamente diz: "ele sofre muito, então não deve ser condenado". Só que sofrimento pessoal não apaga o crime, nem demonstra inocência. Em produção e interpretação de texto, isso aparece como falha de pertinência: os argumentos precisam sustentar a conclusão de modo racional. Se a conclusão é "deve ser absolvido", o texto precisaria trazer razões jurídicas, provas de ausência de autoria, atenuantes legais relevantes ou algo que realmente converse com essa conclusão. O que vem antes, porém, é só um apelo sentimental, quase um pedido de pena. Por isso o gabarito A está correto: os argumentos não apoiam a conclusão. O texto até tenta gerar compaixão no leitor, mas compaixão não é fundamento lógico suficiente para absolvição. É aquele momento em que a argumentação pede carona para a emoção, mas esquece de trazer o mapa da lógica. Na linguagem da argumentação, a conclusão precisa decorrer das premissas. Se as premissas falam de drama familiar e a conclusão fala de absolvição penal, falta encaixe. A FGV gosta justamente de identificar esse tipo de quebra estrutural: muita pressão emocional, pouca sustentação racional.