Assinale a frase abaixo, retirada do romance Ressurreição, de Machado de Assis, ou do romance O Cortiço, de Aluísio Azevedo, que mostra a palavra mais na classe gramatical da preposição.
- A)“Jurar-lhe! De que serve um juramento mais entre nós?”
Errada, porque em “um juramento mais entre nós” a palavra “mais” funciona como advérbio com valor intensificador ou de acréscimo, não como preposição.
- B)“Na opinião da mãe, havia alguma coisa mais do que o nome e a moléstia; havia uma inexplicável melancolia, anterior à doença...”.
Errada, porque em “mais do que” há uma estrutura comparativa, em que “mais” integra a comparação e não desempenha função prepositiva.
- C)“João Romão não saía nunca a passeio, nem ia à missa aos domingos; tudo que rendia a sua venda e mais a quitanda seguia direitinho para a caixa econômica e daí então para o banco.” (1890-AA8).
Errada, porque em “venda e mais a quitanda” o “mais” tem valor de adição, próximo de “além de”, mas a construção não é a que a questão pede para identificar como preposição.
- D)“João Romão observava durante o dia quais as obras em que ficava material para o dia seguinte, e à noite, lá estava ele rente, mais a Bertoleza, a removerem tábuas, tijolos, telhas, sacos de cal, para o meio da rua...” (1890-AA8).
Certa, porque em “rente, mais a Bertoleza” o “mais” equivale a “com” ou “junto de”, funcionando como preposição.
- E)“— Oh! Por mim não! Respondeu a boa senhora; o direito das velhas tem um limite no direito das moças. Vá, doutor, e mais tarde volte cá, se o não agarrarem por aí...” (1872-MA2).
Errada, porque em “mais tarde” a palavra “mais” é advérbio de intensidade, modificando “tarde”, e não preposição.
Gabarito: D
A palavra “mais” costuma aparecer como advérbio de intensidade, indicando aumento ou comparação, como em “mais tarde” ou “mais entre nós”. Mas ela pode assumir outra roupa e virar preposição, com sentido de “junto com”, “acrescido de”, “além de”. Nessa função, ela liga termos e não traz ideia de comparação nem de intensidade. O segredo aqui é perceber o valor semântico da expressão. Quando “mais” equivale a “com”, “além de” ou “acrescido de”, ele está funcionando como preposição. É um uso menos comum no dia a dia, por isso a banca gosta de explorar esse detalhe. Na alternativa D, a frase “rente, mais a Bertoleza” mostra exatamente esse emprego: João Romão está ao lado de Bertoleza, trabalhando junto com ela, em sentido equivalente a “rente com Bertoleza” ou “rente a Bertoleza”. Portanto, “mais” não está comparando nem intensificando nada; está apenas relacionando os termos. Esse tipo de análise é pura morfologia na prática: antes de decorar rótulos, você testa o sentido na frase. Se a troca por “com” ou “junto de” mantiver a ideia, há forte indicação de preposição. E foi isso que a banca FGV cobrou aqui, de forma bem elegante e sem pedir licença.