O início do romance O Primo Basílio, de Eça de Queiroz: “Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: — Tu não te vais vestir, Luísa? — Logo.” Assinale a afirmativa incorreta sobre o conteúdo ou sobre a estruturação desse segmento inicial do romance.
- A)O primeiro período desse fragmento situa no tempo e no lugar as ações narradas a seguir.
Certa: o enunciado inicial situa a cena no tempo e no espaço, funcionando como abertura narrativa.
- B)Esse fragmento inicial já introduz dois personagens da narrativa: Jorge e Luísa.
Certa: Jorge e Luísa aparecem nominalmente desde o começo do fragmento.
- C)A pergunta do personagem Jorge traz implícita a cobrança de que Luísa já deveria se ter vestido.
Certa: a fala de Jorge sugere expectativa de que Luísa já estivesse pronta.
- D)A resposta de Luísa faz supor que há algum aborrecimento na relação entre os dois personagens.
Errada: a resposta “Logo” indica apenas adiamento e não prova, sozinha, aborrecimento entre os personagens.
- E)As formas verbais “espreguiçou-se”, “bocejou” e “disse” exemplificam uma sequência cronológica de ações, marca dos textos narrativos.
Certa: “espreguiçou-se”, “bocejou” e “disse” organizam uma sequência de ações, marca típica da narração.
Gabarito: D
Esse trecho inicial de O Primo Basílio já entrega uma técnica clássica da narrativa: antes mesmo de a história “andar”, o narrador situa o leitor no tempo, no espaço e no ambiente doméstico. Repare no efeito de abertura: “Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar” já coloca a cena em um momento específico e num interior burguês bem marcado. Isso é muito típico de romance realista, que gosta de começar observando os detalhes do cotidiano como quem diz: “preste atenção, aqui nada é por acaso”. Logo depois, aparecem Jorge e Luísa em ação e em diálogo, o que já caracteriza personagens e relação entre eles. A fala de Jorge, “Tu não te vais vestir, Luísa?”, pode ser lida como uma cobrança suave, quase doméstica, sugerindo impaciência ou expectativa. Já a resposta “Logo” não autoriza, por si só, concluir que exista aborrecimento entre os dois. Ela indica apenas adiamento, sem prova textual de conflito emocional. É justamente por isso que o gabarito é a letra D: a frase de Luísa não permite inferir, de modo seguro, que haja desavença ou mau humor na relação. Em interpretação de texto, você precisa ficar colado ao que o texto mostra, não ao que sua intuição gostaria de completar. A banca FGV adora esse movimento: a alternativa parece psicológica e elegante, mas exagera na inferência. As demais alternativas se sustentam melhor no trecho: há marca temporal e espacial, há apresentação de personagens, há sequência de ações no pretérito perfeito e há um pequeno diálogo que já constrói a atmosfera da cena.