Um romance mostra o seguinte segmento: “Eu pergunto que tipo de história a menina deseja. Ela responde categoricamente que quer uma história de amor e de ficção científica. Então, comecei: ‘Um robô encontra uma jovem...’ Mas ela não me deixa prosseguir. ‘Você não sabe contar histórias’, disse ela. Uma verdadeira história é obrigatoriamente no passado. - Tá bom, se você quer: “Um robô encontrou uma jovem...” - Não, tem que ser no passado histórico... - Bom, lá vai: “Outrora, há muito tempo, um robô muito inteligente, ainda que totalmente metálico, encontrou num baile uma jovem da nobreza. Eles dançaram e ele lhe disse coisas gentis. Ela ficou corada. Ele se desculpou e recomeçaram a dançar. Ela o achou um pouco ousado, mas encantador... Eles se casaram pouco tempo depois, receberam muitos presentes e partiram em viagem de lua de mel.” Sobre esse fragmento narrativo, é correto afirmar que:
- A)o aspecto de ficção científica da história narrada se restringe ao personagem robô e a suas ações mecânicas;
Errada: o robô não é o único traço de ficção científica, porque o fragmento também explora a mistura de gêneros e uma ambientação literária mais ampla.
- B)a observação de que uma história deve obrigatoriamente ser narrada no passado é verdadeira, mostrando o conhecimento textual da menina;
Errada: uma história não é obrigatoriamente narrada no passado, pois há narrativas em presente, futuro ou outras formas; a fala da menina é uma exigência estilística, não uma regra universal.
- C)o passado histórico solicitado pela menina foi realizado por meio de expressões de tempo distante e de ambientes literariamente idealizados;
Certa: o “passado histórico” aparece nas marcas de tempo distante e no cenário idealizado, como em narrativas de tom clássico ou de conto.
- D)o texto narrativo produzido pelo narrador mostra a preocupação de limitar-se ao absolutamente essencial do enredo;
Errada: o enredo não se limita ao essencial, porque o narrador amplia a cena com vários detalhes decorativos e romantizados.
- E)o narrador da versão final da história mostra preocupações de usar a linguagem informal, adequada à pouca idade da leitora.
Errada: a linguagem final não é marcada por informalidade por causa da pouca idade da leitora; o trecho usa um tom literário, com construção cuidada e até solene.
Gabarito: C
A questão trabalha interpretação de texto e identificação de efeitos de construção narrativa. Perceba que a menina exige uma história em “passado histórico”, isto é, um modo de narrar que dá ao relato um ar de conto tradicional, com marcas de distância temporal e de ambientação idealizada, como “Outrora, há muito tempo...”. Isso cria o clima de fábula, conto de fadas ou narrativa literária mais “antiga”, em vez de uma fala espontânea e moderna. No fragmento, o narrador atende ao pedido usando expressões que empurram a história para um tempo remoto e quase mítico, além de montar um cenário romantizado: baile, jovem da nobreza, casamento, lua de mel, tudo bem encaixado num enredo “de livro”. Por isso, a alternativa C é a correta: o passado histórico foi construído justamente por recursos linguísticos e por um ambiente literariamente idealizado. As outras alternativas escorregam em detalhes do texto. Não se trata só de um robô mecânico, nem de uma narrativa reduzida ao essencial, e também não há motivo para dizer que a linguagem foi informal por causa da idade da leitora. O humor da cena está justamente na tentativa do narrador de adaptar a história ao gosto da menina, sem perder o efeito literário. Em provas da FGV, vale ficar atento a isso: a banca gosta de cobrar como certos elementos do texto produzem sentido, e não apenas o que aparece literalmente. Aqui, a chave é enxergar a combinação entre tempo narrativo, tom de conto e idealização do cenário.