Um dos problemas da língua escrita é a troca indevida entre palavras semelhantes na forma, mas de significados distintos (parônimos). Entre as frases abaixo, retiradas de um romance de Machado de Assis, assinale aquela em que houve uma troca equivocada entre COSTUMAR e ACOSTUMAR.
- A)“Eu estava costumada a admirá-lo de longe. Conhecia-o pouco, mas meu irmão falava-me muita vez a seu respeito nas cartas que me escrevia para Minas, e Raquel fazia coro com ele.”
Errada: a frase pede a ideia de hábito, então o adequado é costumar, não acostumar.
- B)“— Seu irmão tem certo entusiasmo por mim, disse Félix; é natural que exagere os meus méritos. Quanto à filha do coronel, é uma criança, que se acostumou a ver-me com olhos de irmã mais moça.”
Certa: “acostumou-se” expressa habituação/adaptação, como pede o contexto.
- C)“Lívia tratou-o com a costumada afabilidade, talvez com afabilidade maior. Como a confiança de Félix não se havia alterado, Lívia usava assim uma dissimulação honesta, por simples motivo de piedade e gratidão.”
Certa: “costumada afabilidade” indica afabilidade habitual, sem troca indevida.
- D)“Anoitecera; Moreirinha estava mais alegre que nunca, e pagava a hospitalidade do médico com as suas galhofas costumadas.”
Certa: “galhofas costumadas” significa brincadeiras de costume, isto é, habituais.
- E)“O tom decidido do rapaz abalou o escravo, cujo espírito, acostumado à obediência, não sabia quase distingui-la do dever.”
Certa: “acostumado à obediência” está correto para indicar hábito e familiaridade com a obediência.
Gabarito: A
Costumar e acostumar são parônimos, isto é, palavras parecidas na forma, mas com usos diferentes. Em regra, costumar indica hábito, frequência, costume: algo que se faz ou acontece habitualmente. Já acostumar traz a ideia de tornar alguém ou algo habituado, adaptado a uma situação, ou de se habituar a algo. A chave aqui é observar a regência e o sentido da frase. Se a ideia é dizer que alguém tem o hábito de algo, o verbo adequado é costumar. Se a ideia é dizer que alguém se adaptou, se habituou, o verbo adequado é acostumar. A banca adora esse tipo de troca, porque a frase continua “bonita”, mas o verbo sai do trilho. Na alternativa A, a forma correta seria “costumada a admirá-lo de longe”, porque a personagem quer dizer que tinha por hábito admirá-lo de longe. O enunciado pergunta justamente onde houve troca indevida entre os dois verbos, e é aí que aparece o erro: foi usado o particípio/adjetivo de acostumar no lugar da ideia de costume/hábito. Em termos de norma-padrão, o sentido pede costumar, não acostumar. As demais alternativas mantêm o valor certo: “acostumou-se” traz adaptação/habitação, e “costumada”, “costumadas” e “acostumado” aparecem com a ideia de habitualidade ou familiaridade de modo coerente. Então, o desvio está apenas no item apontado pelo gabarito.