“Numa peça teatral ou romance, uma palavra imprópria é apenas uma palavra: e a impropriedade, seja ou não percebida, não acarreta consequência alguma. Num código legal – especialmente composto de leis tidas como fundamentais – uma palavra imprópria pode ser uma calamidade nacional: e a guerra civil, a consequência disso. De uma palavra tola podem irromper mil punhais.” (Bentham, 1796) A finalidade básica desse fragmento textual é:
- A)alertar contra o uso impróprio de palavras, especialmente em textos de grande aplicabilidade social;
Certa, porque expressa a advertência central do texto sobre o risco do uso impróprio das palavras em textos de grande relevância social.
- B)mostrar o uso irresponsável das palavras em textos modernos, mesmo naqueles produzidos por pessoas cultas;
Errada, porque o texto não critica a modernidade nem a cultura dos autores, mas a gravidade da impropriedade vocabular em certos contextos.
- C)indicar que a impropriedade vocabular é fruto da inadequação entre o significado da palavra e a situação em que é empregada;
Errada, porque o fragmento não define impropriedade vocabular como simples inadequação entre significado e situação, e sim como problema de uso com potencial consequência.
- D)demonstrar a absoluta necessidade de que os usuários das palavras tenham perfeito conhecimento de seus significados;
Errada, porque o autor não exige conhecimento perfeito e absoluto dos significados, apenas chama atenção para a responsabilidade no uso das palavras.
- E)aconselhar que os autores dos textos verifiquem a possibilidade de ambiguidade no uso dos vocábulos a fim de evitarem consequências desastrosas.
Errada, porque a questão não trata de ambiguidade em sentido técnico, mas do perigo social de palavras mal empregadas em textos normativos.
Gabarito: A
O texto de Bentham tem uma ideia central muito clara: palavras não são apenas enfeite literário. Em certos contextos, principalmente nos textos normativos, uma escolha vocabular ruim pode gerar efeitos enormes. Em um romance, a impropriedade de uma palavra pode passar quase despercebida. Já numa lei, uma palavra mal colocada pode afetar direitos, deveres e até provocar conflitos sociais. A comparação serve justamente para destacar a responsabilidade do redator quando o texto tem alta força social. Por isso, a finalidade básica do fragmento é alertar para o uso impróprio das palavras, sobretudo em textos de grande impacto coletivo. O autor não está falando de moda linguística nem de modernidade: está chamando atenção para o perigo concreto de redigir mal quando o texto produz efeitos jurídicos ou sociais relevantes. É uma ideia muito próxima do princípio da segurança jurídica, que exige precisão e clareza nas normas. Repare que o foco não é dizer que toda palavra tem um significado único e absoluto, nem que todo autor precisa ser um semideus do dicionário. O ponto é mais prático: em textos que regulam a vida social, a imprecisão pode virar problema sério. Em prova da FGV, quando o texto é argumentativo e traz comparação entre contextos, quase sempre você deve buscar a intenção principal do autor, não uma leitura excessivamente literal. Então, o gabarito A está correto porque resume a tese do fragmento: o uso impróprio das palavras deve ser evitado, especialmente quando elas aparecem em textos com forte repercussão social, como as leis. O restante das alternativas ou exagera, ou troca o foco, ou tenta transformar uma advertência geral em uma explicação técnica específica.