Um conto moderno do escritor paranaense Dalton Trevisan começa com a seguinte frase: “Primeira noite ele conheceu que Santina não era moça.” A marca essencial desse segmento que o insere no conjunto dos textos literários de ficção e não entre os textos informativos, é:
- A)a seleção vocabular de linguagem erudita;
Errada, porque linguagem erudita não é marca obrigatória do texto literário, já que a literatura pode usar linguagem simples, coloquial ou até popular.
- B)a absoluta correção gramatical na estruturação das frases;
Errada, porque a literatura não depende de correção gramatical absoluta, e muitos textos literários exploram desvios intencionais de norma.
- C)o emprego da linguagem popular como sinal de inclusão;
Errada, porque o uso de linguagem popular pode ocorrer na literatura, mas não é isso que define o trecho como ficcional ou literário.
- D)a presença inicial de termos sem referentes na realidade;
Certa, porque o início já cria uma situação ficcional, sem depender de referência direta e objetiva à realidade como um texto informativo.
- E)a necessidade de situar no tempo e no espaço o fato referido.
Errada, porque situar no tempo e no espaço é comum em narrativas, mas não é a marca essencial que distingue literatura de texto informativo.
Gabarito: D
A questão explora uma diferença clássica entre texto literário e texto informativo. No texto informativo, espera-se referência mais direta e objetiva ao mundo real, com linguagem que aponta claramente quem, o quê, quando, onde e como. Já na literatura, a linguagem pode criar estranhamento, sugerir sentidos e não depender de uma referência imediata e literal para funcionar. Na frase de Dalton Trevisan, há um começo já marcado pela ficção: “Primeira noite ele conheceu que Santina não era moça.” O efeito não está em informar de modo neutro, mas em construir uma cena com ambiguidade, tensão e economia expressiva. A frase não precisa apresentar dados completos nem contexto jornalístico; ela abre um universo narrativo que o leitor vai montar aos poucos. Por isso, o ponto essencial é a presença inicial de termos sem referentes diretos na realidade, isto é, elementos que não se apresentam como simples descrição factual. Em literatura, a linguagem não serve apenas para nomear o mundo, mas para recriá-lo. A ficção pode inventar situações, personagens e relações, e é justamente isso que afasta o trecho de um texto meramente informativo. As outras alternativas tentam te puxar para características secundárias ou até falsas. A banca quer que você perceba que o literário não se define por falar bonito, por ser sempre gramaticalmente rígido ou por precisar situar tudo no tempo e no espaço como um relatório. O efeito literário nasce muito mais da construção de sentido do que da obrigação de informar.