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Português · FGV · 2024

Questão comentada de Português

Observe o trecho narrativo a seguir, fundamentado na carta de Pero Vaz de Caminha ao rei de Portugal: “No dia 23 de abril, pela manhã, saímos de nossa nau, preparamos um batel e dirigimo-nos à terra, onde já nos esperavam alguns índios. Reconheci, entre eles, um que, no dia anterior, me dera um colar de penas em troca de algumas contas. Logo a seguir, passamos a caminhar pela areia, ainda que com alguma dificuldade, porque nossos casacos grandes não ajudavam com o calor e nossas botas grossas atrapalhavam nosso andar. Pensava no que nos estaria aguardando mais tarde, depois que passássemos o pequeno rochedo da extremidade da praia, talvez uma tribo inteira ou alguns animais ferozes. Continuamos nossa caminhada.” Sobre a estruturação desse texto narrativo, é inadequada a seguinte afirmativa:

Gabarito: E

Este texto trabalha a narrativa com marcas bem claras de tempo e de movimento. Logo no início, a data (“No dia 23 de abril”) situa o leitor de forma direta, como um relógio aberto na primeira linha. Depois, a narrativa vai costurando pequenas voltas no tempo e antecipações, algo bem típico de texto narrativo: ora o narrador lembra algo já vivido, ora imagina o que pode acontecer adiante. Repare que a descrição das roupas e da dificuldade de caminhar ajuda a construir o ambiente e também situa a cena no tempo histórico, sem precisar dizer isso de modo explícito o tempo todo. É um recurso narrativo muito comum: o autor não fica repetindo “era de manhã”, “era calor”, “passou-se o tempo”, mas deixa pistas no caminho. Isso dá ritmo ao texto e evita aquela narração engessada, que parece boletim meteorológico. A passagem em que o narrador lembra do índio que lhe dera um colar de penas é uma retrospectiva, isto é, uma volta ao passado. Já a expectativa sobre o que haveria depois do rochedo cria uma projeção futura, uma antecipação do que poderia ocorrer. Esses movimentos mostram que a narrativa não anda em linha reta o tempo todo. O gabarito é a letra E porque o texto não apresenta um narrador onisciente no sentido tradicional. Há um narrador em primeira pessoa, participante dos fatos, que relata o que viveu e o que pensou, mas não sabe tudo sobre a narrativa nem sobre os demais personagens. Em literatura e em teoria da narração, onisciente é quem conhece pensamentos, passado e futuro de todos; aqui, o narrador sabe apenas o que observa, recorda e imagina.

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