Observe o seguinte fragmento textual, da autoria do célebre autor colombiano Gabriel Garcia Marquez: “Acabaram por conhecer-se tanto, que antes dos trinta anos de casados eram como um só ser dividido, e se sentiam incomodados pela frequência com que adivinhavam o pensamento um do outro, ou pelo incidente ridículo de que um antecipava em público o que o outro ia dizer. Haviam sorteado juntos as incompreensões cotidianas, os ódios momentâneos, as bobagens recíprocas e os fabulosos relâmpagos de glória da cumplicidade conjugal. Foi a época em que se amaram melhor, sem pressa e sem excessos, e ambos foram muito conscientes e agradecidos por suas vitórias inverossímeis contra a adversidade. A vida havia de apresentar-lhes ainda outras provas mortais, é claro, mas já não importava: estavam na outra margem.” Assinale a afirmativa que está de acordo com os significados ou a estruturação desse texto.
- A)O narrador emite juízos de valor sobre as situações que relata.
Certa, porque o narrador emite avaliações e juízos de valor, mostrando subjetividade na forma de narrar.
- B)No texto, o narrador também é personagem do relato.
Errada, porque o texto não indica que o narrador participe da história como personagem.
- C)Os personagens do texto são apresentados fisicamente.
Errada, porque o fragmento não traz descrição física dos personagens, mas sim traços relacionais e afetivos.
- D)As ações presentes no texto são encadeadas sem interrupções.
Errada, porque há progressão narrativa com digressões e avaliações, e não apenas encadeamento mecânico de ações.
- E)As ações do texto são objetivamente narradas.
Errada, porque a narração não é neutra nem objetiva: há linguagem avaliativa e interpretação do narrador.
Gabarito: A
Neste trecho, o narrador não fica apenas “mostrando” os fatos como uma câmera neutra. Ele organiza a narrativa com comentários e avaliações, deixando clara uma postura valorativa diante do que relata. Expressões como “ridículo”, “fabulosos”, “inverossímeis” e a construção “já não importava” revelam esse olhar do narrador sobre os acontecimentos e sobre o casal. Isso é típico de uma narração em que há subjetividade: o narrador interpreta a cena, qualifica os fatos e conduz o leitor para uma leitura emocional e avaliativa. Em outras palavras, ele não é um registrador frio dos eventos, mas alguém que comenta e colore a história com sua visão. Por isso, a alternativa A está correta. Já as demais não se sustentam: não há indicação de que o narrador seja personagem, nem descrição física dos personagens, e o texto não é feito de ações puramente objetivas ou sem interrupções. A FGV gosta justamente desse jogo entre narração e ponto de vista, então vale ficar atento aos adjetivos e às marcas de julgamento do narrador.