Leia o pequeno texto a seguir: “Sob a lua, num velho depósito abandonado, os meninos dormem. Aqui batia antes o mar, nas grandes e escuras pedras do depósito, as ondas rebentavam estrondosas ou se arrastavam mansas. A água passava por baixo da ponte onde agora dormem os meninos, iluminados por um resto amarelecido da lua.” Sobre esse fragmento textual, é correto afirmar que
- A)se trata de um texto narrativo, com intromissões descritivas.
Errada, porque o fragmento não é propriamente narrativo; ele é sobretudo descritivo, ainda que tenha uma leve passagem temporal.
- B)o narrador do texto é do tipo onisciente.
Errada, porque não há elementos suficientes para afirmar narrador onisciente, já que o trecho não explora pensamentos ou saber total sobre as personagens.
- C)a descrição compreende mais de um momento.
Certa, porque a descrição alterna entre passado e presente, abrangendo mais de um momento.
- D)as realidades descritas estão em movimento.
Errada, porque o trecho não destaca exatamente o movimento das realidades descritas, mas sua transformação temporal e visual.
- E)a visão e o tato são os sentidos empregados na descrição.
Errada, porque a descrição não se limita à visão e ao tato, havendo também forte apelo visual e temporal, sem foco sensorial organizado desse modo.
Gabarito: C
O fragmento é um bom exemplo de texto descritivo com recorte temporal múltiplo. Primeiro, ele apresenta o presente da cena: os meninos dormem sob a lua, num depósito abandonado. Depois, a voz textual volta ao passado com a lembrança de quando ali batia o mar, com as ondas rebentando nas pedras. Em seguida, retorna ao presente, mostrando a água passando por baixo da ponte e os meninos iluminados pela lua. Essa alternância de tempos faz a descrição abranger mais de um momento, o que explica o gabarito. Perceba que a questão não pede só para identificar se há descrição, mas o modo como ela se organiza. Em prova da FGV, é comum o texto literário misturar descrição e narrativa sem contar uma história completa. Aqui, o foco não está em ações sucessivas de personagens, e sim na construção de uma imagem poética feita de camadas temporais e sensoriais. Também vale notar que não há base para falar em narrador onisciente no sentido clássico, porque o fragmento é curto e não explora acesso à interioridade das personagens. O que domina é a composição de cena, quase cinematográfica, com passagem entre passado e presente. Se você enxergar o movimento temporal dentro da descrição, já está com meio caminho andado.