Observe o seguinte texto: Quando entrei no terrível vagão, ele estava ocupado por duas pessoas. Uma, dobrada, coberta, dormia profundamente. A coberta superior estava manchada, de fundo amarelado, como pele de leopardo. Vendem-se muitas mantas assim nas lojas de artigos de viagens, mas pude notar logo depois que se tratava realmente da pele de um animal selvagem; do mesmo modo, o boné da pessoa adormecida me pareceu ser de feltro branco bastante delicado. O outro viajante, uma aparência simpática, parecia ter passado dos trinta anos e mostrava-se como figura insignificante que passa confortavelmente as noites em estradas de ferro. Nesse fragmento textual, para criar sinais de história realista e verdadeira, o narrador apela para a seguinte estratégia:
- A)seleciona uma situação banal da qual não precisa fornecer muitos detalhes, exatamente por sua banalidade.
Errada, porque o trecho não aposta na banalidade sem detalhes, mas sim em descrições minuciosas e marcantes.
- B)fornece algumas marcas caracterizadoras dos dois personagens presentes no texto, destacando sua banalidade.
Errada, porque os personagens são descritos com traços específicos, mas o foco da estratégia não é destacar sua banalidade.
- C)indica traços descritivos do ambiente, mostrando-o como se nada houvesse nele de excepcional.
Errada, porque o ambiente não é apresentado de modo neutro ou sem exceção, e sim com elementos concretos e expressivos.
- D)mostra detalhes variados e bastante pitorescos dos objetos descritos.
Certa, porque o narrador usa detalhes variados e pitorescos para produzir efeito de realidade e verossimilhança.
- E)dá ao leitor informações sobre personagens e ambiente, mostrando-os como bastante conhecidos do narrador.
Errada, porque o texto não trabalha com familiaridade entre narrador e personagens, mas com observação detalhada da cena.
Gabarito: D
A questão explora um recurso bem típico da narrativa realista: o efeito de realidade. Em vez de dizer simplesmente que a cena é verdadeira, o narrador vai espalhando detalhes concretos, específicos e até meio curiosos, como quem observa com atenção quase de câmera. Isso faz o leitor pensar: "isso aconteceu de verdade". Perceba que o fragmento não se contenta com uma descrição genérica. Ele menciona a coberta manchada, o aspecto de pele de leopardo, a comparação com mantas de loja, o boné de feltro branco e até o jeito de o outro viajante parecer alguém que passa as noites em estradas de ferro. Esses detalhes não são apenas decorativos: eles dão textura, cor e verossimilhança ao texto. Por isso, o gabarito é a letra D. A estratégia do narrador é justamente mostrar detalhes variados e bastante pitorescos dos objetos descritos. Em outras palavras, ele constrói uma cena viva, visual e singular, o que reforça a impressão de realidade. É o tipo de detalhe que, em literatura, faz o cenário ganhar corpo sem precisar apelar para explicações longas. Na tradição crítica, isso se relaciona à verossimilhança literária: o texto parece verdadeiro porque seleciona marcas concretas e precisas do mundo narrado. Não é uma regra de lei, mas um conceito clássico da teoria literária muito cobrado em interpretação de texto.