O célebre orador Padre Antônio Vieira escreveu em um dos seus fantásticos sermões: “Os dias, soma-os a vida, diminui-os a morte, multiplica-os a ressurreição”. Assinale a afirmação inadequada em relação ao significado e à estruturação dessa frase.
- A)O enunciador da frase preferiu a forma pleonástica, antecipando o substantivo “os dias” e repetindo-o nos pronomes pessoais oblíquos “os”.
Está correta, porque há anteposição de "os dias" e retomada pelo pronome oblíquo "os", criando efeito pleonástico.
- B)As frases que compõem esse pequeno texto obedecem a rigoroso paralelismo sintático.
Está correta, pois as construções mantêm paralelismo sintático e reforçam a musicalidade da frase.
- C)A temática que envolve a frase está ligada ao campo semântico da religião.
Está correta, já que a frase se organiza em torno de símbolos ligados à religião cristã.
- D)A sequência dos termos “vida”, “morte” e “ressurreição” recria o caminho do homem na visão cristã.
Está correta, porque "vida", "morte" e "ressurreição" desenham a trajetória humana na visão cristã.
- E)A sequência dos termos “soma”, “diminui” e “multiplica” indica uma visão materialista da existência humana.
Está errada, porque a sequência dos verbos não indica materialismo, mas uma leitura espiritual e religiosa da existência.
Gabarito: E
A frase de Padre Vieira trabalha com uma imagem muito forte e simbólica: a vida vai somando dias, a morte vai subtraindo, e a ressurreição aparece como uma espécie de multiplicação da existência. Ou seja, não é uma conta de planilha, mas uma metáfora religiosa para falar do sentido da vida humana dentro da visão cristã. Repare que a estrutura também é elegante: há paralelismo sintático, com verbos no imperativo e os complementos organizados de forma espelhada. Isso dá ritmo, força e memória ao enunciado, como se a frase tivesse sido talhada para impressionar o ouvinte - e Vieira era mestre nisso. Por isso, a alternativa inadequada é a que lê essa sequência como visão materialista da existência. O texto faz exatamente o contrário: ele associa vida, morte e ressurreição a uma leitura espiritual e cristã, não a uma lógica de acúmulo material. Em outras palavras, a matemática ali é só figura de linguagem, não proposta filosófica de bolso. Como não há fundamento legal aqui, o que manda é a interpretação textual e o conhecimento de estilo barroco e sermão religioso, muito presentes na obra de Vieira.