Assinale o segmento abaixo em que o enunciador do texto faz comentários sobre seus meios de expressão e não sobre o processo de composição da narrativa.
- A)Não quis fazer um romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dois caracteres.
Errada, porque comenta a elaboração do romance e a escolha da forma narrativa, não os meios de expressão em si.
- B)Estêvão, da distância e na posição em que se achava, não podia ver todas essas minúcias que aqui lhes aponto, em desempenho deste meu dever de contador de histórias.
Errada, porque faz referência ao papel de narrador e ao modo de contar a história, isto é, ao processo narrativo.
- C)Saltar de um retrato a um epitáfio pode ser real e comum; o leitor, entretanto, não se refugia no livro, senão para escapar à vida.
Errada, porque traz uma reflexão geral sobre leitura e vida, sem comentar diretamente a linguagem ou o título.
- D)Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo de homem calado e metido consigo.
Certa, porque o narrador explica o sentido da palavra do título e comenta o uso vocabular, ou seja, seus meios de expressão.
- E)Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. Antes disso, porém, digamos os motivos que me põem a pena na mão.
Errada, porque fala da organização do livro e da sequência da escrita, algo ligado à composição da narrativa.
Gabarito: D
A questão pede que você perceba a diferença entre dois tipos de comentário do narrador: um sobre como a história foi composta e outro sobre os próprios meios de expressão, como palavras, sentidos e título. Em Machado de Assis, isso aparece com frequência: o narrador conversa com o leitor e comenta o texto enquanto o texto acontece. Quando o enunciador fala do processo de composição, ele explica como construiu a narrativa, como organizou episódios, personagens ou estrutura. Já quando ele comenta seus meios de expressão, ele reflete sobre a linguagem, sobre o sentido de uma palavra, sobre o título ou sobre a escolha vocabular. Aqui, a banca quer exatamente essa segunda hipótese. Na alternativa D, o narrador diz: “Não consultes dicionários. Casmurro não está aqui no sentido que eles lhe dão, mas no que lhe pôs o vulgo...”. Perceba que ele não está falando de como a narrativa foi montada, e sim do valor da palavra “Casmurro”, isto é, do sentido do título. Isso é comentário metalinguístico, sobre o instrumento da escrita, não sobre a engrenagem da história. Por isso o gabarito é D. As outras opções tratam da construção do livro, da narração ou da função de narrador, mas apenas D discute diretamente a linguagem e o significado de uma palavra usada como título.