Observe os versos de Vinicius de Moraes: “Para que vieste na minha janela meter o nariz? / Se foi por um verso, não sou mais poeta. / Ando tão feliz!” Assinale a afirmação correta sobre a estruturação ou a significação desse pequeno texto.
- A)A utilização da linguagem popular nesses versos mostra o desprezo que os autores modernistas tinham pela própria poesia.
Errada, porque a linguagem mais coloquial não expressa desprezo pela poesia, e sim um efeito de simplicidade e oralidade no poema.
- B)Os versos de Vinicius mostram o cuidado com a norma culta, que os poetas sempre preservaram.
Errada, porque o texto não destaca apego à norma culta; ao contrário, trabalha com tom leve e expressão mais espontânea.
- C)Segundo o texto, a infelicidade é indispensável à produção poética.
Certa, porque o poema sugere que a felicidade afasta o impulso poético, associando a produção do verso à infelicidade.
- D)A preposição “por” no segmento “Se foi por um verso” tem o valor de causa.
Errada, porque em “por um verso” a preposição indica motivo, mas a alternativa peca ao generalizar a estrutura sem analisar o sentido global do texto.
- E)O verbo “andar”, no último verso do poema, indica um movimento lento e progressivo.
Errada, porque “ando” não indica movimento físico lento aqui; funciona como verbo de estado, em valor aproximado de “estou”.
Gabarito: C
O texto brinca com uma ideia bem conhecida na poesia: a de que a criação poética muitas vezes nasce da dor, da falta, da inquietação ou da tristeza. Aqui, o eu lírico reage com estranhamento à visita e solta uma espécie de desabafo: se a pessoa veio por causa de um verso, ele nem quer mais saber de poesia, porque está feliz. Perceba a lógica interna do trecho: “Se foi por um verso, não sou mais poeta. / Ando tão feliz!”. A felicidade aparece como o motivo que afasta o impulso poético. Não é uma regra absoluta da literatura, mas é justamente a imagem construída pelo poema: a alegria do eu lírico enfraquece a necessidade de escrever. Por isso, a alternativa C está correta: segundo o texto, a infelicidade é apresentada como algo indispensável à produção poética. O poema sugere, em tom leve e irônico, que sem sofrimento não haveria poesia. É uma interpretação do sentido do texto, não uma tese universal sobre a literatura. A FGV gosta muito desse tipo de questão: em vez de cobrar só gramática, ela cobra leitura fina do efeito de sentido. Então, vale sempre perguntar: o que o texto afirma de forma explícita ou implícita? Aqui, ele contrapõe felicidade e poesia de modo bem claro.