Uma carta (traduzida) de Van Gogh a seu irmão Théo, diz o seguinte: A respeito do Meerestille de Heine, que eu tinha copiado no teu caderno, não é? Há algum tempo atrás eu vi um quadro de Thijs Maris que me fez pensar nele. Uma velha cidade da Holanda, com fileiras de casas num castanho avermelhado com oitões em escadinha e patamares nas portas, telhados cinzas, e portas brancas ou amarelas, vãos e cornijas, canais com barcos e uma grande ponte levadiça branca sob a qual se encontra uma chata com um homem ao leme, a casinha do guarda da ponte que se vê pela janela sentado em sua pequena escrivaninha. Um pouco mais longe no canal, uma ponte de pedra sobre a qual passam pessoas e uma charrete com cavalos brancos. É movimento por toda parte; um homem com um carrinho de mão, um outro apoiado no parapeito, olhando para a água, mulheres de preto com toucas brancas. No primeiro plano, um cais com lajotas e um parapeito preto. Assinale a afirmação correta sobre esse fragmento textual.
- A)Trata-se de texto basicamente descritivo, com exceção do penúltimo parágrafo, de tipo narrativo.
Errada, porque o fragmento é predominantemente descritivo e não há trecho narrativo no penúltimo parágrafo.
- B)Há possíveis problemas na tradução do texto, como a ambiguidade no emprego de “nele”, no primeiro parágrafo.
Certa, pois a tradução pode ter gerado ambiguidade pronominal em "nele", prejudicando a clareza do referente.
- C)Ocorre nítida incoerência no segmento “portas brancas ou amarelas”, no segundo parágrafo.
Errada, porque "portas brancas ou amarelas" é apenas uma alternativa cromática compatível com a descrição.
- D)Há emprego indevido da preposição “sob” em lugar de “sobre” no segundo parágrafo.
Errada, porque "sob a qual" está correto para indicar a posição da chata em relação à ponte levadiça.
- E)A expressão “Um pouco mais longe no canal”, no terceiro parágrafo, mostra ilogicidade, pois um quadro, sendo um plano, não tem profundidade.
Errada, porque um quadro pode sim sugerir profundidade por composição espacial, com primeiro plano e distância relativa.
Gabarito: B
O fragmento é um bom exemplo de texto descritivo: ele não conta uma sequência de ações com começo, meio e fim, mas vai pintando uma cena, quase como se a pessoa estivesse passando o pincel sobre a paisagem. Repare que predominam nomes de elementos visuais e espaciais, como casas, telhados, canais, ponte, homens, mulheres e cores. Isso é descrição, com foco em detalhes percebidos pelo observador. A banca gosta de testar se você percebe a diferença entre descrever e narrar. Narrar exige acontecimentos encadeados no tempo; aqui, o texto apenas apresenta, enumera e organiza os elementos da cena. Até verbos como "há", "vi" e "se vê" servem mais para localizar o quadro do que para construir uma história. O gabarito B está correto porque pode haver problema de tradução em "leu"/"nele" no contexto original. A referência pronominal fica pouco clara em português: sem o texto-fonte, é possível que a tradução tenha criado uma ambiguidade que não existia, ou pelo menos que não ficasse tão forte no original. Em prova de interpretação, isso importa porque a FGV aceita observar falhas ou ruídos de tradução quando eles afetam a compreensão do trecho. As demais alternativas tentam forçar incoerências onde não há. O texto aceita perfeitamente a convivência de portas brancas ou amarelas, a preposição "sob" está adequada para a ponte levadiça, e a indicação de distância dentro de um quadro é apenas recurso de composição espacial, não ilogicidade. Em resumo: a cena é visual, organizada e descritiva, e o único ponto realmente problemático é a possível ambiguidade do pronome.